Waldenomania [X] : Escapar do escapismo
Walden Woods video game will recreate the world of Thoreau
While the player travels through the virtual world of Walden, and deals with everyday life at Walden Pond, they will also be asked, the team said, to "focus on the deeper meaning behind events that transpire in the world. By attending to these events, the player is able to gain insight into the natural world, and into connections that permeate the experience of life at Walden."
Walden: A Game
In this virtual world players will experience living simply and wisely, as a part of nature and not apart from it.
18.1.13
Ratinho por uns tempos [III]
Toda a frugalidade do modo de vida na quinta dos Märkl contrasta com a comida que comem, central a tudo o que rege a vida quotidiana. O objectivo fundamental é a auto-subsistência total, que atingem nos produtos vegetais e animais através da produção própria, complementada pela troca (por exemplo do sal grosso ou do azeite, uma vez por ano). A actividade da queijaria paga tudo aquilo em que não se pode evitar o vil metal.
Regem-se também por algumas regras simples que estão implícitas à paixão e orgulho que têm pela sua autarcia, apesar de todas as suas contradições: os ingredientes são sempre o que está mais fresco e em maior quantidade (só comem na época); atacam as conservas entre Outubro e Março (não cheguei a provar ou a ver mais do que as sobreviventes do ano anterior); matam e comem um animal que é "esticado" por várias refeições (quase uma semana um borrego, 3 dias um frango); metade das refeições são (ovo-lacto) vegetarianas.
É possível que seja do apetite do trabalho intenso mas foram inquestionavelmente algumas das semanas em que melhor comi na minha vida e em que felizmente recuperei algum peso dos quase 8 kg que perdi por motivos de saúde nos dois meses anteriores, quando receava que a minha estadia como voluntário poderia agravar esse problema.
A rotina alimentar do Verão:
- O pão é feito no forno a cada 2 dias, uma mão de massa é embrulhada num pano e enfiada na gaveta para fermentar e juntar à massa seguinte. O pão é sempre diferente e sempre excelente porque o hiperactivo M. aborrece-se e põe lá azeitonas, figos, oregãos, presunto e o que mais lhe apetecer. Faz-se ao fim da tarde, fermenta até ao jantar, vai para o fogo a seguir à refeição, de manhã ainda está quente.
- Os sub-produtos da produção de queijo como o soro vão para fazer manteiga fresca (de longe a melhor e mais leve manteiga que já provei, branquíssima) ou requeijão, a moeda de troca principal com os vizinhos e que vai sempre temperado com ervas frescas e limão. As duas formas de aproveitamento do soro são feitas todos os dias, alternadamente e por vezes já depois da meia-noite. O requeijão fresco é de longe melhor que o seu queijo curado na minha opinião mas a sua comercialização formal é-lhes interdita por causa das exigências sanitárias. Em vez disso é moeda de troca com vizinhos, por tabaco por exemplo.
- O sumo de eleição é um concentrado de uva que procurei convencê-los a vender também com o queijo mas não acreditaram que fosse assim tão bom. Não conheço qualquer mistela de pacote que lhe faça frente e eles não fazem ideia da pouca concorrência que têm por isso desconsideram o que fazem. Pediram-me para deixar de beber uma garrafa por dia (que tinham oferecido mas que não pensavam de que viesse a gostar tanto) porque também a usam para troca.
- Todos dias ao final da tarde vai-se espreitar a horta e recolhe-se o que está demasiado grande, caído, estragado ou em excesso para a alimentação da noite dos animais e uma porção de cada tipo de vegetal (leguminosa, couve, raíz, fruta) para o jantar e almoço do dia seguinte. Ao jantar coze-se ou assa-se, no almoço do dia seguinte salteia-se.
- Fora uma vez ou outra no Inverno nunca fazem sopa, que consideram uma incompreensível obsessão portuguesa. Como português foi a única coisa de que senti falta, e com um pão com queijo é uma refeição em si mesma, fácil e rápida de fazer e que aproveita absolutamente tudo, desde a água a restos de legumes e carne. "Comida de bébé", dizem os anfitriões.
10.1.13
Como mover penedos
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| Cachenas a pastar junto ao rio Vez |
Fui há tempos fazer um percurso de 3 dias à Peneda. Num café numa das etapas a curiosidade mútua levou a que me perguntassem o que estava lá a fazer sozinho e a que eu depois perguntasse sobre o uso que se ainda dava às Brandas porque muitas estavam visivelmente ocupadas. Acontece que lá vão vivendo com os apoios ao gado Barrosão, Cachena e Churra mas é quase tudo para auto-consumo oficial ou não-oficial (ou seja, redução de efectivo para "auto-consumo" dos restaurantes locais).
A conversa lá vai inevitavelmente para os velhotes isolados - a aldeia seguinte, com 53 pessoas, está a duas fatalidades masculinas de ser uma comunidade matriarcal porque os homens inevitavelmente se gastam mais rápido e vão indo à frente.
Um dos homens do café, como o Clark Kent a abrir a camisa, de repente diz - "olhe, eu sou o Presidente da Junta daqui". Depois explica, com o café só com a senhora a lavar as chávenas (que é de outra freguesia), que daqui a 20 anos a freguesia em que estamos quase não existe - todos (todas?) passaram já o limite estatístico da esperança média de vida.
A mania de maçarico ingénuo que quer ter um projecto agrícola causa depois a habitual sequência de surpresa, cepticismo e troça mas conclui o sr. presidente - com razão- que não há um movimento desse tipo com escala suficiente para ocupar aquele território da mesma forma ou com a mesma intensidade de outrora, nem mesmo com a ajuda do turismo. Fica assim implícito um retorno de grande parte daquela paisagem a uma colonização florestal mais ou menos espontânea que não existe nalguns locais há séculos ou mesmo milénios.
A única esperança daquele sítio, continua, era de que os filhos emigrados das pessoas que lá estão, agora perto da idade de reforma, se aposentassem naquele local. Vendo as famílias luso-francesas que passaram naquele café pouco tempo antes, com netos/bisnetos loirinhos que já só falam a língua materna, custa-me muito a acreditar que alguma vez ficassem nas montanhas longe dos filhos e de um estilo de vida que lhes custou muito a atingir.
Ao ir embora dias depois ia vendo a cena recorrente desta região (na imagem acima), em que os solos profundos junto aos rios, outrora reservados nessa altura para culturas mais exigentes e valiosas, são transformados em pastos durante o ano todo porque, fora o vinho verde, já é a única produção compensatória que resta. Como não posso competir com este "arrendamento verbal" para gado que é renovado ano a ano, com a minha necessidade de ter papéis para concessão a 10-15 anos para culturas perenes parece que é cada vez mais esta a direcção da zona até que se mudem as atitudes e se apostem nas culturas agro-florestais aptas aos solos férteis e clima desta região e em atrair outras pessoas para além dos retornados francófonos.
18.12.12
Apontadores [XVII] : Ver os Gregos
With Work Scarce in Athens, Greeks Go Back to the Land
Emigrar ou suar para conseguir entrar em mercados de exportação muito competitivos. Não acho que existam certezas de redenção rural nem que o desespero seja bom motivador, mas é uma tentativa tão boa como qualquer outra.
Golden Dawn far-right party give out food to Greek nationals only
O que o desespero gera de certeza é o oportunismo que utiliza o acesso a alimentos e a caridade como arma política e ferramenta de divisão da sociedade por motivos que não têm a ver com as causas da fome.
Greek farmers rent patches of land to citydwellers in scheme to combat crisis
A compra directa ao produtor por "acções" emerge num esquema que existe no norte da Europa e EUA há décadas: consumidor financia agricultor com pré-compra de alimentos para dada época, a ser fornecida posteriormente. Ambos poupam bastante tempo e dinheiro e reduzem desperdício.
Greek crisis: social enterprise is one answer to economic strife
Apagar fogos reais para apagar fogos sociais e outras ideias pragmáticas e viáveis no curto prazo para combater a crise, enquanto que em Portugal organizamos o enésimo workshop/conferência/bolsa de ideias para projectos de pesquisa de potenciais acções de economia social/criativa/ambiental.
Greece's cut-price potato movement shows Greeks chipping in
Para proteger margens mínimas os supermercados cartelizam preços de alimentos essenciais, em resposta pessoas que por causa da "falta de conforto" nunca comprariam fora dos hipers passam a recorrer à compra em quantidade ao produtor na traseira da carrinha. São batatas de protesto político.
Ordinary Greeks are taking matters into their own hands
Como os impostos vão sobretudo para pagar juros e as companhias de bens essenciais estão privatizadas basta um pequeno rastilho para que qualquer cidadão se sinta no direito de roubar água, electricidade e fugir a declarações de renda, muitas vezes com cumplicidade do poder local.
Young Greeks Create Self-reliant Island Society
Tudo o que sei deste tipo de eco-aldeias põe-me bastante céptico quanto à sua viabilidade, mas não se pode ignorar o apelo dos benefícios de partilhar os recursos que encarecem imediatamente em tempos de crise, como habitação, alimentação e transporte. Há muitas formas de o fazer.
Emigrar ou suar para conseguir entrar em mercados de exportação muito competitivos. Não acho que existam certezas de redenção rural nem que o desespero seja bom motivador, mas é uma tentativa tão boa como qualquer outra.
Golden Dawn far-right party give out food to Greek nationals only
O que o desespero gera de certeza é o oportunismo que utiliza o acesso a alimentos e a caridade como arma política e ferramenta de divisão da sociedade por motivos que não têm a ver com as causas da fome.
Greek farmers rent patches of land to citydwellers in scheme to combat crisis
A compra directa ao produtor por "acções" emerge num esquema que existe no norte da Europa e EUA há décadas: consumidor financia agricultor com pré-compra de alimentos para dada época, a ser fornecida posteriormente. Ambos poupam bastante tempo e dinheiro e reduzem desperdício.
Greek crisis: social enterprise is one answer to economic strife
Apagar fogos reais para apagar fogos sociais e outras ideias pragmáticas e viáveis no curto prazo para combater a crise, enquanto que em Portugal organizamos o enésimo workshop/conferência/bolsa de ideias para projectos de pesquisa de potenciais acções de economia social/criativa/ambiental.
Greece's cut-price potato movement shows Greeks chipping in
Para proteger margens mínimas os supermercados cartelizam preços de alimentos essenciais, em resposta pessoas que por causa da "falta de conforto" nunca comprariam fora dos hipers passam a recorrer à compra em quantidade ao produtor na traseira da carrinha. São batatas de protesto político.
Ordinary Greeks are taking matters into their own hands
Como os impostos vão sobretudo para pagar juros e as companhias de bens essenciais estão privatizadas basta um pequeno rastilho para que qualquer cidadão se sinta no direito de roubar água, electricidade e fugir a declarações de renda, muitas vezes com cumplicidade do poder local.
Young Greeks Create Self-reliant Island Society
Tudo o que sei deste tipo de eco-aldeias põe-me bastante céptico quanto à sua viabilidade, mas não se pode ignorar o apelo dos benefícios de partilhar os recursos que encarecem imediatamente em tempos de crise, como habitação, alimentação e transporte. Há muitas formas de o fazer.
14.12.12
Ratinho por uns tempos [II]
A sala dos Märkl é um museu durante quase 6 meses, desde a época de reprodução das suas 120 cabras Saanen até à quebra no leite que acompanha a chegada do tempo frio. No Verão só tenho alguns minutos para passar por este local de hibernação à hora do almoço e ler os títulos dos livros porque para o sortudo do aprendiz voluntário o dia começa às 7 e acaba às 11 e meia da noite. Para os dois ocupantes permanentes da quinta começa às 5 e acaba perto da 1 da manhã. O voluntário tentou durante dois dias acompanhar o ritmo dos anfitriões e fracassou espectacularmente, parando para evitar que, distraído pelo cansaço ficasse sem um dedo ou, pior, uma das cabras dos anfitriões.
Como todos os trabalhos são duros e rápidos não há espaço para pensar no cansaço ou ir à boleia do seu atrito mental. Estar concentrado evita acidentes por isso nem a enorme monotonia das funções é capaz de quebrar um ritmo mais próximo de um trabalho fabril do que da expectativa bucólica.
Emerge logo um ritmo de tarefas repetidas todos dias: ordenhar; alimentar porcos e galinhas; fazer pequeno-almoço; tratar da horta; tratar do pomar; ordenhar novamente: levar cabras ao pasto; alimentar animais; fazer queijo; lavar queijaria e sala de ordenha; cortar lenha; cozinhar; lavar louça e casa.
A estas somam-se as tarefas alternadas a cada dois dias: roçar mato para cama de gado; fazer a cama do gado; ceifar milho para gado; fazer manteiga ou requeijão; matar animal para próximas refeições, etc, etc.
Quando estive na quinta não realizei nenhuma das tarefas que acompanham o fim dos ciclos produtivos ou estações: matança dos porcos; fazer vinho; salgar carne; ir às compras (uma vez por ano); fazer conservas, entre muitas outras que ficam por aprender.
Num dos dias, em cima do monte de milho ceifado, quase a cair para o lado do tractor e a tornar-me um obituário típico do JN o M. pára a geringonça e cumprimenta um vizinho nativo. Este pergunta se sou português e fica negativamente surpreendido - aparentemente os wwoofers de países ricos fazem isto para fortalecer o carácter enquanto que o português, coitado, deve estar cá para comer um pouco de sopa. "Já vi como eles vivem, vocês são como os Ratinhos!". Ele já conhecia o colchão de rama de ervilha por trás da queijaria onde faço o ninho à noite debaixo da lâmpada mais coberta de traças que já vi. Podia ser do quotidiano mas a intermitência do voo dos insectos naquela pequena divisão provoca um enorme e bem-vindo estado de sonolência.
Ratinho por uns tempos [I]
Quando cheguei à quinta dos Märkl (coitados, pronuncia-se "Merkel") a maior parte do meu entusiasmo com o WWOOFing tinha sido substituído pelo receio mais básico que aparece quando me apercebo de que estou numa área bastante remota e pouco povoada do país e que se desaparecesse nunca ninguém saberia onde ou com quem estava.
Sair sem ninguém saber para onde nem para o quê é provavelmente a estratégia errada para experiências uma vez que se tratava provavelmente do ponto da minha vida onde não via grandes razões para confiar noutras pessoas. Por isso, mudar-me durante umas semanas para uma quinta que se anunciava "orgulhosamente só" nos seus 90% (!?) de auto-suficiência parecia tudo menos a reacção mais óbvia ou recomendável.
Cinco minutos depois de chegar já sabia que não havia grande tempo para tretas deste tipo, "é Verão e trabalha-se 14 horas por dia", por isso no mesmo gesto que os cumprimentos passaram-me um estojo de facas para a mão, pousaram-me o saco na sala e fomos matar o cabrito que nos tinha acolhido aos saltitões de alegria momentos atrás. Nunca tinha morto realmente nada maior do que uma unha e procurei ter o máximo de sangue frio para a rapidez do processo mas é complicado emular a eficiência e impassividade do T., o filho do outro anfitrião e proprietário, o M., quando cravou um espigão na nuca "para anestesiar" e depois rapidamente me explicou como degolar o animal enquanto o segurava, ignorando o facto de eu estar ainda atónito com esta imersão repentina no ciclo de vida e de morte da quinta.
Ao ajudá-lo a preparar a carcaça para o entregar a um cliente no dia seguinte o T. informa-me que a reentrância de cimento no alpendre onde estávamos a enganchar o ex-carneiro, totalmente aberta para a paisagem, era também o único duche. Seria eu a limpá-lo nessa noite, ao tomar banho com a água aquecida a lenha, que depois carregaria e içaria para um bidão de gasolina vazio e furado por baixo, limpando assim o chão empapado de sangue. A parte difícil é na verdade segurar a lanterna de campismo com a boca para não estar às escuras, mas mesmo com os pés pastosos e cor-de-rosa estar ali exposto às estrelas é uma experiência de humildade e uma distracção muito bem vinda, uma vez que todos problemas se reduzem à mesma proporção que a fragilidade do corpo ao relento. E depois desaparecem por um momento.
Tempo de Estio
O Verão agora terminado foi tempo de seca e de perdas mas também de levantar de ilusões e idealismos. A transformação inevitável que daí resulta só traduz a noção de que dependemos apenas de nós próprios neste mundo e que poucas coisas controlamos ou podemos planear. Eis que os lugares-comuns revelam o seu fundo de verdade...
Não ter nada a perder elimina todas as desculpas para não se descobrir o que se quer verdadeiramente e arriscar sozinho uma hipótese de o agarrar.
Por isso nos últimos meses foi preciso ocupar a mente, o corpo e as mãos a tempo inteiro para aprender, experimentar outras formas de vida e viajar. Acabou o Verão mas começa outra procura. Mãos à obra.
15.10.12
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