Truísmos [XX]

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"The less I needed, the better I felt"

Charles Bukowski "Let it unfold you"

(de assinalar que poucas pessoas serão menos bucólicas que o CB, mas em vez de uma das milhares de imagens dele a beber escolhi esta num raro acto de jardinagem (?) por motivos manifestamente contextuais)

Apontadores [XIX] : Consumo Cooperativo

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Voltámos ao tempo das trocas sem dinheiro
A Rede Barter  organiza trocas de serviços entre empresas através de um sistema de créditos, sem dinheiro, mais uma tipologia de partilha de recursos que não conhecia

Este supermercado é gerido por votação e os clientes também são donos
Uma cooperativa de consumo da Marinha Grande que paga sempre acima do ordenado mínimo, sem horários esmagadores e ainda apoia os produtos nacionais com preços comparáveis aos dos hipers

The People's Supermarket: where even the smell of baking bread is genuine
Neste supermercado os membros são também donos, pagam a mensalidade com trabalho no supermercado, não vendem produtos que não sejam locais ou saudáveis, não desperdiçam nenhum produto e têm um restaurante cooperativo

Cooperativa comunitária: nos Estados Unidos, apostar em produtos locais compensa
Este é um modelo há muito comum em vários países e que vai aparecendo em Portugal, a eliminação de intermediários torna mais competitivos produtos de alto valor acrescentado

Co-operative Businesses Are Booming in Tough Times
As dificuldades inerentes a crises económicas, somadas à facilidade que as pessoas têm em associá-las aos seus verdadeiros responsáveis, levam a uma oportunidade para os negócios baseados na comunidade

Entrepreneurs of cooperation
A espantosa história de como as cooperativas de consumo sustentaram comunidades inteiras durante a grande depressão e foram depois ilegalizadas ou impedidas de operar por causa de pressões políticas durante a Guerra Fria. Não é preciso reinventar a roda!

To Build a Community Economy, Start With Solidarity

A soliedariedade é algo muito diferente da caridade. Uma é horizontal, a outra é vertical. Importa imbuír todos os serviços de espírito solidário, perdido durante as últimas décadas para o consumismo e individualismo, que agora se revela auto-destrutivo.

Habemus Ager!

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Após meses de procura, negociação e muita espera tenho o meu próprio espaço, graças também à generosidade e abertura de quem o cede.
Estou tão contente como aterrorizado, mas espero que nos próximos anos consiga materializar muito do potencial que vejo neste lugar e algumas das coisas que defendo em relação a alimentação, agricultura e comunidade. Vou procurar colocar aqui o progresso das coisas.

Inspirar, expirar e mãos à obra!

Encontrar Terra

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Tendo crescido num subúrbio no seio de uma família sem qualquer ligação ao mundo rural, o que é relativamente raro em Portugal, encontrar um lugar tornou-se incrivelmente difícil, apesar de por todo o lado ver solo agrícola subaproveitado ou mesmo não utilizado que parecia troçar da minha condição de desterrado, que está prestes a alterar-se.

Como algumas pessoas devem de certeza passar pelo mesmo, deixo algumas dicas, tendo em conta a salvaguarda de existirem imensas especificações para cada situação. No meu caso procurei no Minho, no mínimo um hectare contíguo numa região onde domina o minifúndio, e o objectivo era arrendar.

Alguns critérios para definir as zonas a escolher:

- Definir as necessidades gerais em termos de características de área e endafoclimáticas para as culturas escolhidas, em termos de altitude, pluviosidade, composição geral dos solos da região, entre outras
- Determinar que áreas são logisticamente mais viáveis e que estão próximas de pontos onde posso publicitar e vender os meus produtos e/ou onde existe um mercado local próximo que absorva os produtos e serviços (neste caso entrepostos e cooperativas agrícolas e uma cidade por perto)
- Encontrar locais onde já sejam produzidas culturas idênticas ao que pretendo produzir e onde existe apoio técnico e material ao tipo de actividade que quero desenvolver
- Encontrar que áreas têm aspectos interessantes do ponto de vista da valorização da produção, como produtos DOP ou IGP que interessem, se são áreas identificadas com dada produção de qualidade ou consideradas como Zonas Desfavorecidas (para âmbito de candidatura a apoios).
- Definir que valores se podem pagar pelo arrendamento (ou compra, se for o caso) e que atenuantes podem valorizar mais ou menos dado local, como despesas quotidianas de deslocação e habitação
- Definir que locais são interessantes para desenvolver a vida quotidiana local

Ser proactivo:

- Coloquei anúncios em papéis A5 com o que procurava e contacto em cooperativas, juntas de freguesia e cafés junto das áreas que me agradaram. Tive muitas chamadas interessantes mas por acaso não encontrei desta forma
- Circulando bastante e com os olhos abertos por toda a região de interesse, ao encontrar um local possível procurar o proprietário através dos vizinhos. "Melgar" sem descanso até obter uma resposta concreta, sendo totalmente transparente e assertivo com os objectivos
- Recorrer a pessoas que conheçam muitos proprietários numa região, como são os engenheiros da cooperativa ou que façam projectos de investimento na zona, as pessoas que normalmente fazem limpezas de terrenos (normalmente feitos por propietários ausentes de quintas) ou outros.
- Não rejeitar à partida possibilidades oferecidas por amigos de amigos ou familiares distantes que têm propriedades na família ou desafiá-los a utilizar esses espaços produtivamente.
- Apesar de serem raros, averiguar se o concelho da área de interesse tem uma iniciativa de Bolsa de Terras
- As imobiliárias NÃO são um bom meio de encontrar terrenos agrícolas a preços verosímeis, mas não custa ver um site agregador de ofertas para ver se existe algo


Problemas mais comuns são normalmente porque o proprietário:

- Não quer arrendar porque considera que "fica depois sem o terreno", porque "você depois nunca mais sai"
- Vai arrendando informalmente mas não quer assinar qualquer contrato
- Quer um valor irrealista para a renda ou não admite um prazo razoável (o mínimo legal são 7 anos)
- Não tem o imóvel em situação regular ou está a meio de um processo de partilhas
- Não se sabe sequer quem é o proprietário legal ou onde se encontra (muitas vezes emigrado)

As soluções possíveis são:

- Demonstrar que um contrato de arrendamento protege ambas as partes
- Que não faz sentido arrendar sem rentabilizar e o valor das rendas está tabelado (no meu caso a  média pedida, para condições muito variadas, foi de 500€/ha/ano)
- Há que verificar dívidas, descrição e proprietário nas Finanças antes de qualquer compromisso
- Alegar que tirar algum rendimento e manter o terreno limpo e vedado já é um "lucro" do arrendamento


Boa caçada!

Ohrwurm [VI]

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Waldenomania [XI] : Ficção científica, ficção bucólica

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Alguns filmes de ficção científica, como o Minority Report (acima, onde a Samantha Morton parece estar a dar o dedo ao futuro com a sua leitura analógica) partem sempre de uma esmagadora distopia urbana ultra tecnológica onde invarivelmente se desencadeiam os conflitos morais necessários ao enredo, para irem terminar numa fantasia de fuga invariavelmente caracterizada por um isolamento num ambiente "natural" ou agrícola.

Esta é uma fantasia literalmente no caso do Brazil (acima) ou (talvez?) do Blade Runner (abaixo, versão do Director's Cut) em que uma ruralidade redentora aguarda os protagonistas no termo das suas provas, para um resto de vida descontaminante. No Brazil é uma bela mentira para reforçar o destino inexorável e tragicómico que é o tom do filme. No último caso esta dicotomia moral demasiado evidente e redutora talvez esteja na base da decisão de remover este final tentador.






Album [XIX] : Aqui toma-se banho

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Ratinho por uns tempos [IV]

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Nesta primeira quinta onde fui "ratinho beirão" ou "caramelo de ir e vir" os meus anfitriões de raízes estrangeiras despertaram-me a curiosidade inicial tanto pelo enorme conhecimento que têm do mundo que os rodeia e do qual de facto dependem absolutamente como pelas maravilhosas contradições do seu estilo de vida, que por sua vez salientam as contradições do estilo de vida praticamente oposto, que praticamos na nossa maioria, se quisermos ser auto-críticos.

Não entendo estas contradições como uma fraqueza nas suas motivações, especialmente se se tiver em conta que os objectivos originais, conscientemente ou não, eram (são) admissivelmente idealistas e provocadores e acho até que está precisamente aí o seu valor - em viver intencionalmente e com um objectivo alheio a qualquer expectativa externa.

Que contradições relativas são estas? Querem a liberdade total dos patrões e do escritório mas não há patrão mais exigente e inclemente que a pecuária, onde a liberdade vai até onde a limpeza dos recintos, alimentação das crias e risco de mastites deixam ir.
Querem a independência total de uma economia baseada em combustíveis fósseis mas é impraticável ter uma queijaria legalizada sem instalações eléctricas e geradores, o que leva ao paradoxo (cruel para o wwoofer mimado) de existir luz e aquecimento na queijaria mas não em casa.

Foi este ideal de auto-suficiência que esteve na origem da mudança para Portugal, com a sua terra barata e longa época produtiva. Durante algum tempo viram este país só através destas características, até descobriram que facilmente passariam fome sem a ajuda dos vizinhos portugueses, com os quais têm agora uma relação amistosa, baseada também na troca de produtos e serviços.

Muitas das pessoas que os ensinaram a arranjar porcos e borregos, a plantar as culturas mediterrânicas e a adaptarem-se à cultura estão hoje idosos, mas têm uma retribuição porque bastantes baldios da envolvente são limpos por estes estrangeiros. Através dos pelo menos 4 terrenos com milho (quase 4 hectares ao todo) que lhes são cedidos e, porque pouco dinheiro têm ou querem ter, trocam muito com os vizinhos, especialmente o requeijão e a carne que não podem vender através da queijaria.

E assim de repente a auto-suficiência heróica foi substituída pela descoberta mais humilde e valiosa da interdepência de todas as coisas e pessoas.

Truísmos [XIX]: A andar e pensar

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"In every walk with nature one receives far more than he seeks."
John Muir 

Perder várias horas...

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... a ver um dos melhores sites que já vi, que não acredito que só descobri agora.
Impossível escolher uma ou duas imagens porque absolutamente todas as galerias são geniais, é importante reservar algum tempo para ver com atenção!


20 de Março de 2012, 11:02

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TV Rural [XIX] : O desafio básico

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Michael Pollan's Food Rules from Marija Jacimovic on Vimeo.

WWOOF em Portugal: algumas dicas

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Missão cumprida - um dos rebanhos preso para sanitização das patas


Depois das minhas (ainda escassas) experiências pediram-me alguns conselhos sobre o WWOOFing.
É importante ter a noção de que o WWOOF é no fundo uma forma de turismo fora do convencional cujo "financiamento" é pago com trabalho voluntário directamente (diferente em natureza, intensidade e responsabilidades)  em vez do dinheiro ganho com o trabalho formal no resto do ano.

Algumas perguntas úteis para decidir se se deve ir e para onde ir

-O objectivo é fazer wwoof em Portugal ou no estrangeiro? (existem vários sites para cada país)
-Se for em Portugal, alguma zona ou tipo de paisagem específica? (muitas diferenças de trabalho)
-O objectivo principal é aprender algum tipo de actividade, conviver ou visitar uma região?
-Que tipo de trabalhos não são aceitáveis e quais são desejáveis?
-Que carga horária é aceitável? (maioria dos anfitriões pede 4-6 horas diárias, 5-6 dias por semana)
-Querem trabalhar com animais ou querem evitá-lo? 
-Que tipo de alimentação e alojamento preferem? (é fácil encontrar locais vegetarianos)
-É preferível uma quinta com só mais 2-3 pessoas ou uma com mais 15 pessoas? (muito diferente)

Sinais de um bom anfitrião:

- Tem um perfil com muita informação, fotos e localização (só visível após pagamento de inscrição no site)
- Se recebe voluntários há algum tempo tem boas referências
- Responde aos emails e telefona em alguns casos para saber se a pessoa é de facto compatível
- Insiste em saber horas, condições e que tipo de voluntário vai receber e quer recebê-lo bem
- Adapta o voluntário ás necessidades da quinta mas também aos seus interesses e aptidões
- Não trata os wwoofers como mão-de-obra barata, toma as refeições com eles e está disponível para partilhar conhecimentos

Sinais de um bom wwoofer:

- Tem um perfil com foto e informação relevante sobre si e o que pretende com o wwoofing
- Lê cuidadosamente o perfil do anfitrião e faz um pedido específico para este, nunca envia copy/pastes
- Faz só um pedido de anfitrião para cada data, aguarda resposta deste e só manda pedido a outro depois de passar um tempo razoável sem resposta ou depois de resposta negativa
- Aparece na hora, local e data marcada
- Cumpre os horários de levantar, comer e trabalhar e adapta-se a situações diferentes
- Dá-se bem com pessoas (muito) diferentes e respeita os hábitos e modo de vida do anfitrião

Tipos de quintas mais habituais (ter noção que 3 em cada 4 são de estrangeiros):

- O projecto de permacultura/eco (quase sempre muito recente), feito "sem pressas" por pessoas mais ou menos inexperientes. Bom para convívio e turismo, mau para aprender algumas aptidões (como maneio animal) mas bom para partilhar o que é quase sempre uma experiência de vida nova também para os anfitriões. Ás vezes com bastante (demasiada) gente.
- A Quinta de reformados com muito tempo e dinheiro nas mãos, mais perto de um jardim enorme do que uma quinta. Excelente para relaxar, comer bem e trabalhar pouco e convívio mais light, mau para fazer trabalho mais significativo do que somente jardinagem e ter uma experiência mais próxima do espírito da coisa.
- A quinta-empresa, excelente para aprender aptidões e saber trabalhar no quotidiano de uma quinta "a sério", boa para trabalhar, mais difícil para conviver com pessoas ou usar o tempo livre.
- A "armadilha", que são quintas que usam o wwoof para ter trabalho escravo e misteriosamente não são expulsas da rede (existem 3-4 assim ao todo). Felizmente raras e ausentes da minha experiência.
- Todo o resto - se calhar a categoria mais interessante mas mais rara, com pessoas muito diversas e ás vezes uma mistura das melhores qualidades e/ou experiências mais extremas.

Album [XVIII]: Eric Valli

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 "Off the Grid"






Apontadores [XVIII]: O mesmo tecto

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O Falanstério de Fourier


Muitos recursos são fáceis de partilhar e evitam a duplicação de despesas, desde o sinal de internet até ao meio de transporte. Em muitos países europeus em que ter casa própria ou fixa é raro, partilhar o prédio/casa/quarteirão é quase a norma durante grande parte do percurso de vida, inclusive após constituir família. 
Vou fazer uma proposta sobre este tema no âmbito do Orçamento Participativo de Guimarães.

Crónicas de uma Desempregada: Viver em comunidade
Um desabafo raro de ler em português, uma mãe solteira e desempregada percebe as vantagens de dividir despesas partilhando um espaço entre um reduzido número de famílias, que podiam inclusivamente revesar-se no acompanhamento das crianças.

Dividir casa é uma resposta à crise mas também de uma opção de vida
O título poderia estar ao contrário - como é claro no artigo o facto de existirem menos adultos fora de um núcleo convencional e dadas as características do parque habitacional do país torna vantajoso estar acompanhados de outras pessoas na mesma situação, fazendo face aos baixos rendimentos.

The Babayagas’ house, a feminist alternative to old people’s homes, opens in ParisA idade média da Europa ultrapassa os 40 anos e os solteiros já são mais numerosos que os adultos que habitam com o núcleo familiar em vários países, o que torna emergente algumas tipologias de co-habitação em reacção aos "depósitos" de idosos como esta comuna feminina.

Viver ou não viver num"kibutz"
Os kibbutz são das mais conhecidas experiências de cohabitação em grande escala, reforçadas mais pelas características agregadoras de uma religião e de um cotnexto político instável do que pelas virtudes inerentes e imediatos à partilha de recursos. Apesar disso, subsistem.

Come together: Could communal living be the solution to our housing crisis?Um artigo com uma excelente recolha de várias tipologias de co-habitação que se estão a tornar "mainstream" no R.U., desde quintas até condomínios fechados de luxo até pequenos prédios convertidos com suites e zonas comuns.

Färdknäppen – a different kind of house
Na Suécia, o modelo mais comum nos países nórdicos (a opção de mais de 10% da população da Dinamarca), com prédios para solteiros com mais de 40 anos - uma tipologia de bloco de habitação com jardim em que os espaços privados são com quartos com escritório e casa-de-banho e que partilham um ou dois pisos com cozinha, jardim e sala.