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Uma semana em Outubro

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Foto do João Sarmento


Com mais novidades do que tempo para as relatar, é ainda estranho acreditar na sucessão de coisas que têm acontecido e que por algum motivo parecem encaixar-se umas nas outras sem nenhuma outra exigência da minha parte do que ter os olhos abertos e estar receptivo ao que aparece, por inesperado que seja.

No passado sábado, dia 5, abri a quinta pela primeira vez a visitantes e amigos, algo que vou repetir em princípio no último Domingo de cada mês (o próximo é no dia 27 de Outubro).
Abro o portão de manhã e existem algumas tarefas a realizar, com vários graus de simplicidade e culmina numa refeição que partilho com quem visitar, mais aquilo que se quiser trazer e partilhar.

Tivemos a sorte de ouvir dois concertos na Eira a fechar o dia (acima), espero que não seja a última vez que acontecem porque não deve existir nada melhor do que centrar um dia em torno do trabalho em conjunto, da comida e da música.

No passado fim-de-semana fizemos também uma primeira experiência para o que um dia pode vir a ser o 1º Mercado Biológico de Guimarães, e muitos contactos de uma inesperada actividade no concelho de pessoas que partilham os mesmos princípios. Cuidadosamente construída, podemos vir a criar localmente uma rede de produtores e clientes daquilo que sei que é o futuro.

Apareçam!


TV Rural [XXI]: Mais inspiração

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The Whole Pie. from Plus M Productions on Vimeo.

(Obrigado Luís)

Denso ou intensivo?

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Ao procurar modelos para o tipo de produção agrícola que gostaria de praticar encontro muitos exemplos que confrontam o que valorizo ambientalmente com o que é compreensivelmente valorizado em termos de eficiência económica. As duas coisas não são necessariamente contraditórias, mas vejo que é sempre raro ou difícil atingir um equilíbrio entre elas.

Como estou responsável por uma pequena quinta que está, segundo o modelo de implementação habitual, no limiar ou abaixo da rentabilidade que o viabiliza, vejo-me impelido por profissionais da área a apostar em apenas num produto do modo mais intensivo e especializado possível, ocupando absolutamente toda a área disponível. Por outro lado gostaria de produzir intensivamente mas de uma forma que incluísse vários produtos que se complementam em termos de uso do solo, integrando melhor produção animal e vegetal por exemplo.

Não se trata apenas de pôr todos os ovos no mesmo cesto face ao risco de perder a produção toda por causa de uma semana chuvosa que coincida com a colheita por exemplo, mas de diversificar também o tipo de serviços e produtos que podem ser oferecidos. Com a variedade poderia diversificar também a clientela para além dos entrepostos e dirigindo-me ao mesmo tempo para o comércio local, algo que tenho vindo a ser absolutamente desaconselhado a fazer mas que sinto que posso experimentar gradualmente nesta fase inicial, especialmente estando dentro de uma área urbana, próxima de um mercado potencial.

A Sunny Creek (na foto) é uma produtora biológica australiana de frutos silvestres, castanha e maçã que produz na seca planície a norte de Melbourne com um sistema agro-florestal que integra os vários frutos, pensado para lidar com o clima e escassez de água, criando um oásis que é também economicamente próspero pela valorização que os seus clientes fazem deste modo de produção. Produzem com médias por hectare bem menores que os melhores casos de estudo tecnológicos destas culturas mas investiram também muito menos para obter o que têm - no fundo o saldo económico é semelhante mas o saldo ambiental e social é muito melhor. O que exigiu foi mais tempo e conhecimento, e uma relação mais elaborada e próxima com o cliente final.

Aqui não vejo muitas contradições, só inspiração.

7 pontos para a instalação de jovens agricultores

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O Eng. José Martino tem mais um interessante artigo no seu blogue

Perguntam-me muitas vezes: qual a estratégia que devo fazer para me instalar como jovem empresário agrícola?
A minha resposta é a seguinte:

1 - Fazer o levantamento das atividades agrícolas que podem ser mais interessantes.
2 - Organizar um plano de visitas a explorações e organizações de comercialização, nacionais e estrangeiras, com o objetivo de recolher o máximo de informações (elaborar um guião de perguntas e pontos a validar. elaborar um relatório de cada visita) para decisão sobre as atividades a eleger (entre uma a duas).
3 - Rever e atualizar o plano de trabalhos de quinze em quinze dias até chegar ao objetivo final: Tomar a decisão sobre as atividades a investir tendo em conta o perfil do empresário, a sua maior ou menor intensidade em capital, acompanhamento no campo, mão de obra, etc. Recomendo que escolham atividades que tenham em conta a vocação do empresário, aquelas que lhe geram paixão, que têm a ver com o seu perfil pessoal.


4 - Elaborar o plano de negócio. Definir com rigor os capitais próprios ou alheios necessários ao investimento e exploração até se tornar positiva a conta de tesouraria
5 -  Apresentar a candidatura ao ProDeR para captar os incentivos de primeira instalação de jovens agricultores
6 - Estagiar
7 - Com as ajudas do ProDeR contratadas avançar para o investimento

Apontadores [XV] : "Guarda prado, criarás gado"

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Pastagens no vale da Senhora dos Remédios, Povoação


Pastagens ajudam clima
Projecto português reuniu conjunto de sementes de espécies anuais para pastagem com o objectivo de tornar estes espaços aptos a fundos de apoio ao sequestro de carbono no solo

Pastagens biodiversas ganham prémio BES Biodiversidade
Outro projecto nacional de elaboração de misturas para pasto, com o apoio do Banco Português de Germoplasma, desta vez para apoiar a biodiversidade associada à criação extensiva

Greener pastures: How cows could help in the fight against climate change
Os métodos tradicionais de criação extensiva em África, com integração da produção animal e vegetal podem ser adaptados para resolver as questões de produtividade e gestão sustentável da paisagem

Poluição por azoto custa 320 mil milhões de euros por ano à Europa
A maior parte da poluição dos solos e aquíferos por azoto, bem como as maiores perdas de bio-diversidade em zonas agrícolas devem-se à produção de forragens para pecuária intensiva

Pecuária Biológica – uma alternativa viável
Portugal tem muitas áreas com aptidão para a pecuária extensiva, será que a sua valorização passa sobretudo por uma certificação biológica ou pode a especificidade dos métodos tradicionais ser suficiente?

Pasture-raised or organic: Why we can’t do both
Uma produtora de avicultura mostra as contradições económicas que levam sua à escolha entre a certificação biológica e um grau de criação extensiva mais de acordo com os seus princípios e dos seus clientes

TV Rural [XVI] : "Prato Perene"

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A propósito do novo vídeo do Saber Fazer, divulgo aqui o documentário Perennial Plate, auto-produzido por Daniel Klein e Mirra Fine, que é um dos melhores exemplos do potencial da internet  para a produção de conteúdo educacional. 

No meio da profusão de programas sobre comida, viagens e modos de vida, ultrapassa facilmente muito do que vemos na televisão, trazendo uma visão original sobre jovens agricultores, alimentação local e muitos aspectos invulgares do panorama culinário dos EUA.

Aqui fica um dos primeiros episódios desta série, completamente disponível no Vimeo:


Puramente Sensato

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Ao ver este episódio do Biosfera sobre a competitividade da agricultura portuguesa é tentador chegar à conclusão de que a Quinta do Romeu, em Trás-os-montes, tem o "segredo" para todo este problema:

- Apostou nas culturas que estão adaptadas à região, tanto pelas suas características físicas e climáticas como pela história no local e aproveitamento do "know-how" tradicional

- Distribui-se por três culturas (olival, montado e vinha), que se alternam durante o ano e tornam a exploração comercialmente mais resiliente e intensiva na sua ocupação do solo

- Abandonou por completo a lógica da produtividade pelo peso, apostando fortemente na produtividade por valor acrescentado, pela certificação biológica e pelo reconhecimento gastronómico

- Comercializa sem intermediários na distribuição, com venda directa através da criação de uma marca forte e facilmente reconhecível e promoção directa (com relação com o turismo e restaurante próprio)

Ou seja, não tenta competir com a produção "ao peso" ou com aquela que já tem balanço noutros países, apostando nas especificidades do que temos, depende de si mesma na medida do possível, criou uma marca diferenciada e pratica uma forma de agricultura diversificada e de grande valor ambiental. Todos estes elementos se "pagam" uns aos outros eventualmente.

A estratégia que funciona em Trás-os-Montes facilmente funcionaria nas frutas do litoral, no gado no Alentejo e Minho e no leite nos Açores.
É exactamente o modelo oposto do que temos vindo a financiar para todo o país.

Agricultura Urbana- Casos de Estudo no Porto

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A "celebridade" deste pequeno produtor da Área Metropolitana do Porto surgiu após a divulgação da curta-metragem "O Último Agricultor da Foz", testemunho de uma das últimas pessoas do centro da cidade a fazer da agricultura o seu modo de vida  (ver este artigo sobre o mesmo Sr. Almeida que saiu no primeiro número da TimeOut Porto) e lembrou-me daquilo que se ouve dos mais velhos sempre que nos aproximamos dos limites do núcleo da cidade: "Isto aqui quando eu era novo era tudo quintas".

Por outro lado parece ter sido ultrapassado o ponto mínimo no número de agricultores (formais e informais) devido a um tímido mas crescente interesse na agricultura urbana na cidade, ainda que sobreviva o ímpeto de construir mais (como no caso do Vale do Coronado, que corre o risco de se transformar numa plataforma logística, entretanto adiada).


Pelo menos nos últimos anos surgiram dois projectos profissionais interessantes em Vila Nova de Gaia: o Cantinho das Aromáticas, (provavelmente conhecido de todos) que tem no Luís Alves não só um coordenador inovador como também um excelente divulgador ao público de boas práticas ambientais e agrícolas (vejam o excelente canal do youtube do Cantinho), vendendo sobretudo limonete seco para exportação, bem como uma excelente linha de tisanas; e a Raízes.org, que faz produção de hortícolas e distribuição de produtos biológicos na área metropolitana. Ambos colaboram para organizar a Festa da Primavera, na Quinta do Paço.

TV Rural [VII] : Dois anúncios completamente diferentes

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Stone Barns Center for Food & Agriculture from Local Projects on Vimeo.




Estou mais virado para o primeiro, que apesar de me parecer ser sobretudo um projecto educativo, está próximo do que seria uma quinta ideal.
O segundo está aqui pelo gozo, especialmente o tractor a sacar e o mocho dançante. Estes últimos também têm um anúncio gangsta, um pouco constrangedor.

Apontamentos [I]

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A empresa de consultoria agrícola Motivos Campestres realizou um Mini-Curso de Nutrição Vegetal em Agricultura Biológica, onde falou do tema e apresentou produtos de um empresa dedicada a este negócio
Para além dos aspectos mais técnicos e específicos desta área, houve bastante informação interessante mais dispersa por outros temas:

- A Oliveira de variedade "Cobrançosa", autóctone é bastante rústica e imune a doenças, necessitando apenas de algum reforço em cobre no solo. A variedade autóctone "Borrenta" é muito mais vulnerável.

-A melhor rotação para a Batata em Portugal é de 6 anos, com uma plantação bem cedo, protegida da geada (por causa do míldio), de forma a ganhar o mercado fora-de-época

-Soluções de agricultura de pequena-média escala: fugir às épocas de massificação de grandes produtores (temporã e tardia); produção cooperativa sob uma marca; focar produtos de valor acrescentado ou culturas mais invulgares (mirtilo, castanha)

- Solos portugueses têm uma PH sobretudo ácido, precisando de uma mistura de calcário e magnésio (+ boro), parte das carências da planta são avaliadas pela análise das folhas

- Se um composto tiver menos de 15% de nutrientes é matéria orgânica, se tiver mais de 15% é um adubo orgânico

- O estrume é essencial para construir a estrutura do solo, especialmente numa fase inicial, mas ter cuidado com o seu consumo de azoto

- Como os cavalos não são ruminantes o seu estrume não elimina as sementes, precisando de ser curtido ou enterrado por períodos mais longos

- Cuidado com o que se compra com a designação de guano porque como é uma mistura pode ter componentes não decompostos, resíduos de aviário, composição irregular, etc.

- Uma análise de solo é um excelente investimento, custa 30€ e dura 5 anos, dando dados imediatos para correcções se o diagnóstico for bom

- O estrume pode acabar por ser caro porque do seu peso total 70% é água (fresco), se estiver seco melhora imenso a capacidade de retenção de água, se estiver fresco num clima húmido pode atrair doenças

- Na floração de plantas nunca se deve ter aplicações de produtos ou qualquer outra operação

À procura de $$$

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Mesmo espartana, a experiência de dois anos de Thoreau teve como uma base uma instalação de custo zero (os terrenos eram da família) e algumas poupanças que, mesmo irrisórias, participavam quotidianamente naquilo que não podia produzir (cereais, óleos e sal, sobretudo).
A auto-suficiência é um ideal bastante heróico e motivador mas não é totalmente realista se o que se pretende é uma conciliação da máxima qualidade de vida com o mínimo de "custos de manutenção".
É uma relação tensa, cujos atritos são difíceis de gerir, mas a síntese faz tudo valer a pena- mesmo se, como diz o T. , podemos não acumular riqueza enquanto nos tornamos "milionários de tempo".
E como ganhar o suficiente para cobrir o que for necessário em relação a saúde, educação, lazer e também o que não se produz?

Foram surgindo umas dicas ao longo do tempo:

CSA: Criar uma cooperativa com um cabaz mensal de determinado produto excedente, que dadas as pequenas dimensões da exploração teria que ser algo de valor acrescentado, como:


Produção Extensiva de Carne : Teria que ser de gado miúdo e de baixas exigências de alimentação, como caprinos ou ovinos, se houvesse nas imediações pasto disponível em baldio ou em arrendamento. Ou então aves, em combinação com pomar. Seria sempre em pequena escala, para cobrir gastos em alimentação, sobretudo.


Produtos Transformados: Produtos passíveis de serem fabricados com um pequeno excedente de produção, como mel, queijo, molhos, etc.Isto agora que a legislação permite vender e fazer isto em casa.


Conservação de espécies Autóctones: A par do espaço disponível e da produção de produtos de origem animal, poderiam ser escolhidas espécies autóctones que são alvo de apoios da PAC, alguns são fornecidos e gratuitamente controlados por associações específicas.


Rações para MPB: Com o contacto com pequenos produtores e amadores constata-se facilmente que nem as rações disponíveis para aves são económicas nem é possível adquirir lotes sem presença de OGM ou cereais de má qualidade.


Trabalhos Sazonais de Cultura: Por todo o país existem épocas em que se pode complementar o rendimento com a apanha de uva, laranja, cereja, azeitona, etc nas explorações de outros.


Plantas Aromáticas Secas: É um sector de valor acrescentado em crescimento no país, uma vez que o clima providencia épocas de crescimento mais longas e pode ser exportado já seco. Existe um momento propício à constituição de cooperativas deste tipo de produção.


Banca de Frescos: É a solução tradicional dos produtores, mas sofre de concorrência directa e intensa tanto de agentes locais como internacionais o que obriga à criatividade e conveniência- em vez de se venderem os legumes isolados, fazer molhos para sopa (tipo "ramo creme de alho françês para 3 pax"), saladas frescas já feitas, ou a vender transplantes de rebentos no início das épocas, por exemplo.


Serviços de Biodiversidade: É difícil explorar o mercado de donativos e serviços públicos, mas podem ser muito compensatórios (em satisfação pessoal e bancária) - podem ir do controlo de fogos usando gado caprino,  à plantação de árvores reconstituição de habitats, etc. Tem que haver experiência e know-how técnico demonstrado e fundamentado para conquistar confiança.


Formação: Um local pode ser o palco de formações sobre artes rurais de qualquer tipo, não apenas agrícolas e não apenas restringidas ao que é praticado ou que se conhece, um bom programa para acompanhar outras fontes de rendimento como:


Turismo de Natureza: Este tipo de turismo certificado abrange várias tipologias, desde as mais convencionais Casas de Campo, até ao Glamping sazonal e o agro-turismo. Tem condições específicas para ser bem sucedido, nomeadamente estar numa zona classificada (pelo menos Rede Natura) que seja imediatamente acessível a partir do empreendimento e outras valências como refeições e zona para banhos.


Dentro destas hipóteses existe uma diversidade enorme de exigências em termos de localização, área, acesso a mercados, competências, etc. mas não é de todo impossível a convivência de quase todos, mantendo o fundamental: um quotidiano variado e gratificante e a colmatação de necessidades económicas (e não só),  fazendo aquilo de que se gosta.