Postais comprados no Mezio, a superioridade numérica das viúvas nas montanhas do Minho tornam óbvio que os homens são criaturas pouco fiáveis e mal adaptadas a este estilo de vida
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Album [XXIV] : Mulheres do Soajo
Postais comprados no Mezio, a superioridade numérica das viúvas nas montanhas do Minho tornam óbvio que os homens são criaturas pouco fiáveis e mal adaptadas a este estilo de vida
10.11.14
Armas de Alimentação Maciça
A nova Lei Europeia das Sementes, actualmente em discussão no Parlamento Europeu e já na 3º versão, propunha inicialmente uma legislação draconiana que fundamentalmente ilegalizava toda a preservação e troca de sementes de variedades não-comerciais, na quais se inclui grande parte do património genético agrícola.
A excepção seriam os casos em que estas variedades fossem adquiridas por empresas comerciais de sementes (que iam reter direitos de autor sobre estas variedades) ou em que a ONG de preservação observassem um conjunto de regras que determina que ou se mantêem para sempre como micro-grupos sem capacidade de "fazer mossa" na agro-indústria ou que crescessem e assumissem um escala e estrutura interna semelhante aos grandes produtores de sementes, acompanhada das taxas correspondentes.
Entretanto, sob uma chuva de protestos, estas condições foram diluídas e enterradas sob jargão legal e regimes excepcionais, não sendo ainda compatível com aquilo que é próprio da civilização.
A UE demite-se assim do papel que poderia ter na preservação de uma das suas maiores riquezas e na defesa do direito universal à alimentação, providenciada por variedades adaptadas regionalmente.
Isto significaria um precedente escandaloso: uma actividade fundamental da Humanidade há milénios como é recolher, preservar e trocar semente (em tempos usada como moeda) e o sustentáculo base da civilização como é a agricultura de subsistência seria alvo de propriedade exclusiva, uma patenteação da vida que a um nível mais absurdo seria como definir a propriedade da chuva em determinada área.
E assim de repente o que era impensável torna-se questionável face à voracidade do elevado potencial de rentabilização do que é essencial, luta que a habitação e energia já perderam há muito e em que a saúde e educação sofrem derrotas constantes.
É por isso que se corre o risco de daqui a alguns anos uma espécie de terrorista ser aquele que produz a própria alimentação; que recolhe a própria água e energia; que constrói a própria habitação sem recorrer a crédito; e finalmente, que recolhe e partilha a própria semente.
Satisfazer as nossas necessidades fundamentais fora da esfera do consumismo torna-se cada vez mais um acto de subversão política quando deveria ser um direito fundamental associado à sobrevivência básica.
Entretanto, sou sócio e futuro guardião desses "perigosos clandestinos" da Colher para Semear, repositório nacional e voluntário de uma riqueza patrimonial comparável ou superior aos Louvres deste mundo - a vida das sementes é a nossa vida. Encomendem e plantem. Resistam.
21.10.13
5 Irmãos criaram a União, quando partilharam a água decidiram ficar
Através do Pedro Rocha cheguei ao documentário completo do pioneiro do documentário António Campos, sobre a vida comunitária de Vilarinho das Furnas antes da sua submersão. Um trabalho que mostra um universo agora já na sua última geração, que é disponibilizado no Youtube pela UBI Filmes.
Já tinha referido este documentário e o Almadraba Atuneira neste post anterior.
16.6.13
Apontadores [XXI]: Autóctone
Alguns apontadores sobre produtos, raças de animais e variedades de plantas de Portugal
Mapa dos DOP/IGP
Uma lista completa de todos os produtos alimentares com origem e/ou método de fabrico protegido. Não é só o que podíamos exportar e consumir mais, é um património. Aqui em lista por extenso, e aqui só as frutas.
Programa para a Promoção dos Ofícios e das Microempresas Artesanais
O programa de apoio à complentariedade de actividade agrícola com actividades artesanais da DGADR. Boas intenções mas os moldes são ainda tímidos para o potencial que por enquanto ainda vai existindo.
Ruralbit - Fotografias de Raças Autóctones
Uma base de dados informal mas com todas as raças e com alguma informação básica sobre cada uma. Cada raça tem uma associação própria que em parceria com o Governo ajuda a definir os padrões.
Federação Nacional das Raças Autóctones
Uma lista de todas as associações encarregadas de proteger o património genético e que prestam alguns serviços de consultoria e contactos de criadores para os interessados
Apoios complementares aos criadores de raças autóctones
Nas raças elegíveis não faz qualquer sentido que esteja destacada a raça bravia (usada nas touradas) e depois não apareçam raças que estão associadas a produtos IGP como a Cachena. Um absurdo.
Flora de Portugal
O portal Flora-on é um tesouro de referência rápida, fico sempre impressionado com as variedades silvestres que não imaginava que existiam
Plantas Invasoras de Portugal
O reverso também é importante conhecer, como esta lista das plantas invasoras no país, com uma descrição sintética. Também não imaginava que algumas destas fossem invasoras.
Banco Português de Germoplasma
Um património vivo único no mundo que é mantido em Braga tem uma história de luta contra a extinção que dava um filme. O maior banco de germoplasma da Península e contribuidor para os congéneres mundiais merecia mais do que nunca o mesmo reconhecimento e cuidado que se dá às reservas de ouro em Lisboa.
Mapa Etno-Musical de Portugal
Muito interessante este mapa interactivo, que inclui alguma da música tradicional da lavoura (com recolhas de M. Giacometti). Por bairrismo e não só gosto da muralha sonora do Canto Polifónico Minhoto, alguém ponha estas mulheres a desafiar os homens da variante Alentejana.
22.5.13
Como mover penedos
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| Cachenas a pastar junto ao rio Vez |
Fui há tempos fazer um percurso de 3 dias à Peneda. Num café numa das etapas a curiosidade mútua levou a que me perguntassem o que estava lá a fazer sozinho e a que eu depois perguntasse sobre o uso que se ainda dava às Brandas porque muitas estavam visivelmente ocupadas. Acontece que lá vão vivendo com os apoios ao gado Barrosão, Cachena e Churra mas é quase tudo para auto-consumo oficial ou não-oficial (ou seja, redução de efectivo para "auto-consumo" dos restaurantes locais).
A conversa lá vai inevitavelmente para os velhotes isolados - a aldeia seguinte, com 53 pessoas, está a duas fatalidades masculinas de ser uma comunidade matriarcal porque os homens inevitavelmente se gastam mais rápido e vão indo à frente.
Um dos homens do café, como o Clark Kent a abrir a camisa, de repente diz - "olhe, eu sou o Presidente da Junta daqui". Depois explica, com o café só com a senhora a lavar as chávenas (que é de outra freguesia), que daqui a 20 anos a freguesia em que estamos quase não existe - todos (todas?) passaram já o limite estatístico da esperança média de vida.
A mania de maçarico ingénuo que quer ter um projecto agrícola causa depois a habitual sequência de surpresa, cepticismo e troça mas conclui o sr. presidente - com razão- que não há um movimento desse tipo com escala suficiente para ocupar aquele território da mesma forma ou com a mesma intensidade de outrora, nem mesmo com a ajuda do turismo. Fica assim implícito um retorno de grande parte daquela paisagem a uma colonização florestal mais ou menos espontânea que não existe nalguns locais há séculos ou mesmo milénios.
A única esperança daquele sítio, continua, era de que os filhos emigrados das pessoas que lá estão, agora perto da idade de reforma, se aposentassem naquele local. Vendo as famílias luso-francesas que passaram naquele café pouco tempo antes, com netos/bisnetos loirinhos que já só falam a língua materna, custa-me muito a acreditar que alguma vez ficassem nas montanhas longe dos filhos e de um estilo de vida que lhes custou muito a atingir.
Ao ir embora dias depois ia vendo a cena recorrente desta região (na imagem acima), em que os solos profundos junto aos rios, outrora reservados nessa altura para culturas mais exigentes e valiosas, são transformados em pastos durante o ano todo porque, fora o vinho verde, já é a única produção compensatória que resta. Como não posso competir com este "arrendamento verbal" para gado que é renovado ano a ano, com a minha necessidade de ter papéis para concessão a 10-15 anos para culturas perenes parece que é cada vez mais esta a direcção da zona até que se mudem as atitudes e se apostem nas culturas agro-florestais aptas aos solos férteis e clima desta região e em atrair outras pessoas para além dos retornados francófonos.
18.12.12
Album [XV] : Açores
Uma ida a um alfarrabista produziu esta colectânea de postais relativos à agricultura nos Açores, que serve para matar as saudades que insistem em aparecer.
4.12.11
TV Rural [XVIII]: Do Minho ao Algarve
Dois filmes do cineasta António Campos que têm como objecto duas comunidades com modos de vida e localizações praticamente opostas- uma aldeia piscatória do Algarve ("Almadraba Atuneira") e uma aldeia de pastorícia nas Montanhas do Gerês ("Vilarinho das Furnas").
A permanência do documentarista dentro destas comunidades durante longos períodos permitiu-lhe não só capturar as suas especificidades e diferenças como também as suas inesperadas semelhanças.
(Não encontrei um modo de ver ou comprar o "Vilarinho das Furnas", agradeço informações)
Parte 2, Parte 3
A permanência do documentarista dentro destas comunidades durante longos períodos permitiu-lhe não só capturar as suas especificidades e diferenças como também as suas inesperadas semelhanças.
(Não encontrei um modo de ver ou comprar o "Vilarinho das Furnas", agradeço informações)
Parte 2, Parte 3
Apontadores [XV] : "Guarda prado, criarás gado"
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| Pastagens no vale da Senhora dos Remédios, Povoação |
Pastagens ajudam clima
Projecto português reuniu conjunto de sementes de espécies anuais para pastagem com o objectivo de tornar estes espaços aptos a fundos de apoio ao sequestro de carbono no solo
Pastagens biodiversas ganham prémio BES Biodiversidade
Outro projecto nacional de elaboração de misturas para pasto, com o apoio do Banco Português de Germoplasma, desta vez para apoiar a biodiversidade associada à criação extensiva
Greener pastures: How cows could help in the fight against climate change
Os métodos tradicionais de criação extensiva em África, com integração da produção animal e vegetal podem ser adaptados para resolver as questões de produtividade e gestão sustentável da paisagem
Poluição por azoto custa 320 mil milhões de euros por ano à Europa
A maior parte da poluição dos solos e aquíferos por azoto, bem como as maiores perdas de bio-diversidade em zonas agrícolas devem-se à produção de forragens para pecuária intensiva
Pecuária Biológica – uma alternativa viável
Portugal tem muitas áreas com aptidão para a pecuária extensiva, será que a sua valorização passa sobretudo por uma certificação biológica ou pode a especificidade dos métodos tradicionais ser suficiente?
Pasture-raised or organic: Why we can’t do both
Uma produtora de avicultura mostra as contradições económicas que levam sua à escolha entre a certificação biológica e um grau de criação extensiva mais de acordo com os seus princípios e dos seus clientes
29.11.11
Ver, Saber, Fazer
Admito que em relação ao conhecimento das artes rurais tradicionais o meu interesse pessoal surge menos da importância patrimonial e etnográfica do que da admiração em relação à capacidade pessoal de produzir de raiz.
Por este motivo invejo menos quem Sabe Fazer pelo facto de ser ter tornado, pela passagem do tempo, numa veneranda personagem do museu vivo da nossa cultura, do que pelo facto de que quem consegue criar com as mãos objectos essenciais para o quotidiano é dono/a de um poder pessoal que imuniza face a técnicas de massificação que supostamente tornam obsoleto tal conhecimento.
Um destes casos é a produção do Linho, que testemunhei em pleno Minho, com ajuda do Grupo Folclórico da Corredoura, que permitem que se faça mais do que assistir e se possa (com a minha gratidão) durante algumas horas participar na colheita desta herbácea.
Esta visita coincidiu oportunamente com uma altura em que me apercebi que foram outrora importantes para o sucesso de muitas comunidades agrícolas não só as boas colheitas de cereais e forragem como a produção de plantas têxteis, sobretudo o Linho mas também o Canhâmo.
Testemunhar isto é um dos motivos pelos quais tenho a sorte de por vezes acompanhar a Alice nas muitas recolhas que já fez da produção de objectos com as mãos, esperando ansiosamente pelas muitas outras que decorrem ou que estão agendadas.
"O Linhal" no Saber Fazer
22.8.11
Dia da Espiga, 2 de Junho
O Dia da espiga ou Quinta-feira da espiga é de origem pagã e celebrado no dia da Quinta-feira da Ascensão com um passeio matinal, em que se colhe espigas de vários cereais, flores campestres e raminhos de oliveira e videira para formar um ramo, a que se chama de espiga, cuja composição tem um significado simbólico profano e um valor religioso.
O dia da espiga era também o "dia da hora" e considerado "o dia mais santo do ano", um dia em que não se devia trabalhar.
Era chamado o dia da hora porque havia uma hora, o meio-dia, em que em que tudo parava, "as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e as folhas se cruzam".
Era nessa hora que se colhiam as plantas para fazer o ramo da espiga e também se colhiam as ervas medicinais. Em dias de trovoadas queimava-se um pouco da espiga no fogo da lareira para afastar os raios.
*Retirado da Wikipedia
O dia da espiga era também o "dia da hora" e considerado "o dia mais santo do ano", um dia em que não se devia trabalhar.
Era chamado o dia da hora porque havia uma hora, o meio-dia, em que em que tudo parava, "as águas dos ribeiros não correm, o leite não coalha, o pão não leveda e as folhas se cruzam".
Era nessa hora que se colhiam as plantas para fazer o ramo da espiga e também se colhiam as ervas medicinais. Em dias de trovoadas queimava-se um pouco da espiga no fogo da lareira para afastar os raios.
*Retirado da Wikipedia
4.6.11
Léxico [V]: Saltus, Hortus, Ager, Sylvae
A parte mais interessante de ler a excelente História das Agriculturas do Mundo é compreender como vai evoluindo a interacção do homem com as paisagens cada vez mais humanizadas, no desejo constante de trabalhar com ela e com os processos biológicos dos organismos que a habitam- é impressionante a diversidade de estratégias adoptadas durante as várias eras e geografias.
O autor usa para descrever a agricultura dos climas temperados da Europa uma terminologia latina que não conhecia e que classifica de um modo simplificado a paisagem produtiva em 4 grupos complementares:
Saltus- são as pastagens periféricas que constituem grande parte da envolvente ás quintas e que servem sobretudo para pasto. Tratam-se de solos que não podem ser plantados com culturas porque não são aptos para tal ou porque não se tem a capacidade de os cultivar. Têm um papel importante porque através da transumância pode-se alimentar facilmente o gado e depois "importar" a sua fertilidade para os estábulos durante a noite, produzindo estrume que depois é concentrado nos Hortus. Ficam normalmente situados em terrenos em declive ou em altitude, com vegetação rasteira ou solos parcialmente erodidos e que necessitam de uma gestão cuidadosa para evitar colonização florestal por um lado e a erosão pelo outro.
Hortus- são as zonas mais férteis e mais próximas dos estábulos e habitações e englobam a vinha, o pomar e as hortas de vegetais, bem como os animais em cativeiro permanente. É o destino final da rama recolhida para forrar as cortes de gado, do composto produzido e outros desperdícios domésticos, que alimentam aves, coelhos e porcos ou são incorporados no solo. É a menor parcela mas também aquela com a produção mais intensiva, contínua e concentrada, e também mais artificial, exigindo cuidados diários.
Ager- É provavelmente a paisagem cujo maneio que sofreu mais mutações ao longo dos séculos, que consistiam sobretudo em diversas estratégias de rotação de culturas. Ocupa sobretudo vales, superfícies planas, zonas irrigadas e os solos mais férteis e microclimas mais favoráveis e sobretudo para a produção de cereais. Durante a maior parte da sua história os diversos esquemas de rotação incluem uma folha com ocupação herbácea, uma de pasto, um pousio (com mobilização do solo) e, finalmente, a cultura pretendida.
Silvus- trata-se da paisagem em que a intervenção humana é menor ou menos aparente, mas também a mais diversa, tendo diversas tipologias em que o factor dominante é a produção florestal, seja para alimentos, forragem ou obtenção de matérias-primas. O seu papel antigo (na Europa) e actual (na maior parte dos países em desenvolvimento) como fornecedor de biomassa enquanto principal fonte de energia e material de construção tornam a sua existência nas imediações da exploração uma necessidade. São Sylvae os Montados com sobreiro, azinheira e oliveiras em Portugal como também o são as florestas de carvalhos utilizadas para caça e recolha de mel da Europa Central. Por todo o lado eram aqui criados os porcos, dizendo-se que se tinha tantos destes animais quantos as devesas das quintas eram capazes de suportar.
Os diversos papéis destas paisagens que são também ricos ecossistemas de vida selvagem foram assim ligeiramente desviados para acolher o homem e a sua subsistência em permanência na natureza envolvente.
Desde a evolução técnica da Agricultura especialmente nos últimos 80 anos que têm vindo a ser simuladas as dávidas destas paisagens:
- Como os animais comem rações sempre estabulados e não pastam no Saltus este é colonizado por florestas jovens e homogéneas mais vulneráveis a fogos ou então entram em processo de erosão.
- Os Hortus não recebem dos animais o composto orgânico, cujos elementos são em vez disso oriundos da extracção mineral e/ou transformação química.
- O Ager está sobretudo dedicado à produção de ração e bio-combustível, de uma forma intensiva que não permite construir a estrutura do solo ou enriquecê-lo sem saturação ou poluição de linhas de água.
- O Silvus deixou de ser gerido como acolhimento para animais que depois se caçavam ou de árvores e arbustos que produziam alimento, para se orientar para monoculturas para produção de óleo ou papel.
Não só parece questionável a sobrevivência destas "substituições" no longo prazo, por ignorarem a dádiva da renovação constante que os processos biológicos permitem em favor de recursos finitos, como julgo que se perdeu um conhecimento profundo em relação à integração da actividade transformadora do homem na paisagem e na Natureza.
O autor usa para descrever a agricultura dos climas temperados da Europa uma terminologia latina que não conhecia e que classifica de um modo simplificado a paisagem produtiva em 4 grupos complementares:
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| Diagrama na pág. 159 do História das Agriculturas do Mundo |
Saltus- são as pastagens periféricas que constituem grande parte da envolvente ás quintas e que servem sobretudo para pasto. Tratam-se de solos que não podem ser plantados com culturas porque não são aptos para tal ou porque não se tem a capacidade de os cultivar. Têm um papel importante porque através da transumância pode-se alimentar facilmente o gado e depois "importar" a sua fertilidade para os estábulos durante a noite, produzindo estrume que depois é concentrado nos Hortus. Ficam normalmente situados em terrenos em declive ou em altitude, com vegetação rasteira ou solos parcialmente erodidos e que necessitam de uma gestão cuidadosa para evitar colonização florestal por um lado e a erosão pelo outro.
Hortus- são as zonas mais férteis e mais próximas dos estábulos e habitações e englobam a vinha, o pomar e as hortas de vegetais, bem como os animais em cativeiro permanente. É o destino final da rama recolhida para forrar as cortes de gado, do composto produzido e outros desperdícios domésticos, que alimentam aves, coelhos e porcos ou são incorporados no solo. É a menor parcela mas também aquela com a produção mais intensiva, contínua e concentrada, e também mais artificial, exigindo cuidados diários.
Ager- É provavelmente a paisagem cujo maneio que sofreu mais mutações ao longo dos séculos, que consistiam sobretudo em diversas estratégias de rotação de culturas. Ocupa sobretudo vales, superfícies planas, zonas irrigadas e os solos mais férteis e microclimas mais favoráveis e sobretudo para a produção de cereais. Durante a maior parte da sua história os diversos esquemas de rotação incluem uma folha com ocupação herbácea, uma de pasto, um pousio (com mobilização do solo) e, finalmente, a cultura pretendida.
Silvus- trata-se da paisagem em que a intervenção humana é menor ou menos aparente, mas também a mais diversa, tendo diversas tipologias em que o factor dominante é a produção florestal, seja para alimentos, forragem ou obtenção de matérias-primas. O seu papel antigo (na Europa) e actual (na maior parte dos países em desenvolvimento) como fornecedor de biomassa enquanto principal fonte de energia e material de construção tornam a sua existência nas imediações da exploração uma necessidade. São Sylvae os Montados com sobreiro, azinheira e oliveiras em Portugal como também o são as florestas de carvalhos utilizadas para caça e recolha de mel da Europa Central. Por todo o lado eram aqui criados os porcos, dizendo-se que se tinha tantos destes animais quantos as devesas das quintas eram capazes de suportar.
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| Rembrandt "Paisagem com celeiro e rebanho de ovelhas" |
Os diversos papéis destas paisagens que são também ricos ecossistemas de vida selvagem foram assim ligeiramente desviados para acolher o homem e a sua subsistência em permanência na natureza envolvente.
Desde a evolução técnica da Agricultura especialmente nos últimos 80 anos que têm vindo a ser simuladas as dávidas destas paisagens:
- Como os animais comem rações sempre estabulados e não pastam no Saltus este é colonizado por florestas jovens e homogéneas mais vulneráveis a fogos ou então entram em processo de erosão.
- Os Hortus não recebem dos animais o composto orgânico, cujos elementos são em vez disso oriundos da extracção mineral e/ou transformação química.
- O Ager está sobretudo dedicado à produção de ração e bio-combustível, de uma forma intensiva que não permite construir a estrutura do solo ou enriquecê-lo sem saturação ou poluição de linhas de água.
- O Silvus deixou de ser gerido como acolhimento para animais que depois se caçavam ou de árvores e arbustos que produziam alimento, para se orientar para monoculturas para produção de óleo ou papel.
Não só parece questionável a sobrevivência destas "substituições" no longo prazo, por ignorarem a dádiva da renovação constante que os processos biológicos permitem em favor de recursos finitos, como julgo que se perdeu um conhecimento profundo em relação à integração da actividade transformadora do homem na paisagem e na Natureza.
30.4.11
Apontadores [IX] : O Pastor (Existir)
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| Imagem @Carlos Goulão |
Guimarães cria protocolo de rebanhos de cabras para 13 Juntas
Controlar combustível enquanto se produzem alimentos, puro bom-senso
Portugal e Espanha gastam 48 milhões em 150 mil cabras para prevenir fogos na raia
A mesma boa ideia, escala diferente. Algumas dúvidas quanto ao modelo de organização...
Guerra de papéis arruma com os pastores itinerantes no Alentejo
Como a burocracia enterra actividades sem nenhum ganho nem razão. Porquê plantas 1.25000?
A aldeia das 2500 cabras
Espectacular reportagem audio sobre o maior rebanho comunitário da Europa, a aldeia é esta.
City folk flock to remote Spain to become shepherds for the day
Uma remuneração mais invulgar para o pastor- um quotidiano de clausura leva ao fascínio pelo oposto
Um pastor dorme de pé
João Direito guarda ovelhas e cabras há 70 anos, é o mais velho pastor da serra da Estrela ainda no activo.
Cabritos de regresso ao Caramulo
É assim que se transforma a carne mais sustentável que existe num produto de valor acrescentado
7.4.11
Puramente Sensato
Ao ver este episódio do Biosfera sobre a competitividade da agricultura portuguesa é tentador chegar à conclusão de que a Quinta do Romeu, em Trás-os-montes, tem o "segredo" para todo este problema:
- Apostou nas culturas que estão adaptadas à região, tanto pelas suas características físicas e climáticas como pela história no local e aproveitamento do "know-how" tradicional
- Distribui-se por três culturas (olival, montado e vinha), que se alternam durante o ano e tornam a exploração comercialmente mais resiliente e intensiva na sua ocupação do solo
- Abandonou por completo a lógica da produtividade pelo peso, apostando fortemente na produtividade por valor acrescentado, pela certificação biológica e pelo reconhecimento gastronómico
- Comercializa sem intermediários na distribuição, com venda directa através da criação de uma marca forte e facilmente reconhecível e promoção directa (com relação com o turismo e restaurante próprio)
Ou seja, não tenta competir com a produção "ao peso" ou com aquela que já tem balanço noutros países, apostando nas especificidades do que temos, depende de si mesma na medida do possível, criou uma marca diferenciada e pratica uma forma de agricultura diversificada e de grande valor ambiental. Todos estes elementos se "pagam" uns aos outros eventualmente.
A estratégia que funciona em Trás-os-Montes facilmente funcionaria nas frutas do litoral, no gado no Alentejo e Minho e no leite nos Açores.
É exactamente o modelo oposto do que temos vindo a financiar para todo o país.
8.3.11
Agricultura Urbana- Casos de Estudo no Porto
A "celebridade" deste pequeno produtor da Área Metropolitana do Porto surgiu após a divulgação da curta-metragem "O Último Agricultor da Foz", testemunho de uma das últimas pessoas do centro da cidade a fazer da agricultura o seu modo de vida (ver este artigo sobre o mesmo Sr. Almeida que saiu no primeiro número da TimeOut Porto) e lembrou-me daquilo que se ouve dos mais velhos sempre que nos aproximamos dos limites do núcleo da cidade: "Isto aqui quando eu era novo era tudo quintas".
Por outro lado parece ter sido ultrapassado o ponto mínimo no número de agricultores (formais e informais) devido a um tímido mas crescente interesse na agricultura urbana na cidade, ainda que sobreviva o ímpeto de construir mais (como no caso do Vale do Coronado, que corre o risco de se transformar numa plataforma logística, entretanto adiada).
Pelo menos nos últimos anos surgiram dois projectos profissionais interessantes em Vila Nova de Gaia: o Cantinho das Aromáticas, (provavelmente conhecido de todos) que tem no Luís Alves não só um coordenador inovador como também um excelente divulgador ao público de boas práticas ambientais e agrícolas (vejam o excelente canal do youtube do Cantinho), vendendo sobretudo limonete seco para exportação, bem como uma excelente linha de tisanas; e a Raízes.org, que faz produção de hortícolas e distribuição de produtos biológicos na área metropolitana. Ambos colaboram para organizar a Festa da Primavera, na Quinta do Paço.
Por outro lado parece ter sido ultrapassado o ponto mínimo no número de agricultores (formais e informais) devido a um tímido mas crescente interesse na agricultura urbana na cidade, ainda que sobreviva o ímpeto de construir mais (como no caso do Vale do Coronado, que corre o risco de se transformar numa plataforma logística, entretanto adiada).
Pelo menos nos últimos anos surgiram dois projectos profissionais interessantes em Vila Nova de Gaia: o Cantinho das Aromáticas, (provavelmente conhecido de todos) que tem no Luís Alves não só um coordenador inovador como também um excelente divulgador ao público de boas práticas ambientais e agrícolas (vejam o excelente canal do youtube do Cantinho), vendendo sobretudo limonete seco para exportação, bem como uma excelente linha de tisanas; e a Raízes.org, que faz produção de hortícolas e distribuição de produtos biológicos na área metropolitana. Ambos colaboram para organizar a Festa da Primavera, na Quinta do Paço.
2.3.11
Sakura Forecast
A imagem ao lado é de um tipo especial de anúncio que se vê a seguir às previsões meteorológicas a partir desta altura, no Japão. Trata-se de um mapa de floração das cerejeiras com o momento estimado de abertura dos botões para cada região.
Este é um dos costumes mais antigos do Japão (o diospireiro também tem um culto associado em menor grau) chamado "Sakura", e mobiliza anualmente milhões de contempladores.
Esta devoção faz-me lamentar a nossa eliminação ou transformação irreconhecível dos cultos pagãos associados às estações, que sobrevivem em algumas festas populares dedicadas a colheitas, apesar de em breve termos também as nossas festas das amendoeiras e cerejeiras, que bem merecem o agendamento de uma visita.
Este é um dos costumes mais antigos do Japão (o diospireiro também tem um culto associado em menor grau) chamado "Sakura", e mobiliza anualmente milhões de contempladores.
Esta devoção faz-me lamentar a nossa eliminação ou transformação irreconhecível dos cultos pagãos associados às estações, que sobrevivem em algumas festas populares dedicadas a colheitas, apesar de em breve termos também as nossas festas das amendoeiras e cerejeiras, que bem merecem o agendamento de uma visita.
24.2.11
Truísmos [VIII]
"In Portuguese mountain areas traditional and sustainable forms of agriculture are on the edge of economic viability, mainly due to agricultural and trade policies which apply economic theories from the industrial sector to agriculture.
As a result, small-scale and family-farmers are forced out of business and they become dependent on the global food-system and markets, when they have no alternative income sources in the rural areas where they live.
At the same time, environmental degradation, unemployment and health epidemics related to urban lifestyles spread and more and more people wish to escape unsatisfying jobs and to reconnect to the land.
An economic system that prevents people form satisfying their livelihood needs directly from the land ultimately creates artificial hindrances to human well-being.
It is essential that sustainable land-based livelihoods are properly valued and become viable again.
For this to happen both policy change and grassroots action are needed. Policies need to consistently support the aim of proximity-based sustainable agri-food systems, i.e. regional food sovereignty, and interested individuals need opportunities to learn how to make a living from sustainable agriculture and other land-based activities."
in Viragem
As a result, small-scale and family-farmers are forced out of business and they become dependent on the global food-system and markets, when they have no alternative income sources in the rural areas where they live.
At the same time, environmental degradation, unemployment and health epidemics related to urban lifestyles spread and more and more people wish to escape unsatisfying jobs and to reconnect to the land.
An economic system that prevents people form satisfying their livelihood needs directly from the land ultimately creates artificial hindrances to human well-being.
It is essential that sustainable land-based livelihoods are properly valued and become viable again.
For this to happen both policy change and grassroots action are needed. Policies need to consistently support the aim of proximity-based sustainable agri-food systems, i.e. regional food sovereignty, and interested individuals need opportunities to learn how to make a living from sustainable agriculture and other land-based activities."
in Viragem
23.2.11
Are you local?
Modelos como as CSAs estão em crescimento em alguns países, com a emergência de correntes díspares: procura de variedades e produtos menos comuns; preocupação com gastos energéticos com transportes; inclusão económica de pequenos produtores, etc.
Colectivamente estas considerações têm vindo a assumir a designação de "locavorismo", embora as prioridades ainda sejam pouco consensuais.
Sendo de certa forma relativa a questão da energia (maior parte da energia gasta nos alimentos é gasta em casa, assim como a maioria dos desperdícios) e bastante circunscrita a questão gastronómica (mais próximo nem sempre quer dizer melhor) acho bastante pertinente a vertente socio-económica e também ambiental, uma vez que transporte e refrigeração ainda têm algum peso nas emissões mas sobretudo se se tiverem em conta produtos e modos de produção de baixo impacto e/ou de suporte à paisagem e biodiversidade.
Nada impossibilita que os hipers apoiem este tipo de produção, inclusivamente comprando a CSAs locais (como a Whole Foods) mas o problema passa a ser um de escala, o que suscitou duas reacções bastante interessantes em dois casos nos EUA e em Portugal que permitem ultrapassar esta questão:
A mega-cadeia de retalho Wal-Mart anunciou que vai reduzir a sua cadeia de abastecimento, passando a fornecer-se da produção agrícola local:
http://www.nytimes.com/2010/
A Jerónimo Martins vai criar uma marca de comércio de rua, que nada impede que tenha também uma cadeia de abastecimento mais reduzida e que apoie oferta dos centros urbanos:
http://www.jornaldenegocios.
Estes dois exemplos não excluem a possibilidade de coordenação com um modelo cooperativo organizado (não sendo necessariamente uma CSA), com vantagens para produtores e consumidores, para além da comercialização directa- em São Miguel uma cooperativa de produtores de carne tem o seu próprio talho e restaurante (bastante famosos) e em Barcelona cooperativas de produtores de hortícolas têm "marcas" e bancas próprias.
Muitos mercados têm mercearias e outras lojas, que lhes dão uma abrangência de necessidades capazes de competir com hipers, se se somar também a sua localização tendencialmente central nas cidades, vantagem que se transformou hoje em desvantagem, situação que ainda pode ser revertida.
Basicamente, existem aqui pontes para conciliar os interesses de todos, se houver uma convergência de alterações:
- Se os consumidores valorizarem mais a produção nacional e local, reconhecerem valor nalguns produtos tradicionais e alimentação "na época", e frequentarem mais os mercados ou comércio de rua- tendência tímida mas crescente
- Se os hipermercados verem vantagens comerciais (logística, ambiente, "premium" social) em reduzirem a sua cadeia de abastecimento e/ou tipologias de loja, como evidenciado por estes exemplos
- Se produtores agrícolas forem capazes de apostar em formas de organização da sua produção que lhes permita concorrer ao nível do comércio local, seja em grandes superfícies e/ou com marcas próprias em mercados e lojas cooperativas e contribuir para o aumento do seu poder negocial e remuneração.
São indícios positivos de outras formas de comprar de forma social e ambientalmente responsável, mais equilibradas do a actual situação que se polariza entre a situação difícil de obter conhecimento de vários produtores deslocalizados e longe dos grandes centros de consumo e a massificação deslocalizada de produtos e abastecedores que exclui ou é apenas limiarmente compensatória para muitos produtores.
3.2.11
Mãos que libertam
No post anterior fica o primeiro episódio do regresso desta série, desta vez 40 anos mais à frente, na ante-câmara da agricultura motorizada. Parece um oxímoro: um reality show didáctico.
O enorme sucesso da primeira série no Reino Unido foi assumido pela produtora BBC como inesperado, o que não é surpreendente uma vez que o programa foca frequentemente técnicas próximas de um fulminante mas discreto desaparecimento, às vezes cingidas a um punhado de sobreviventes que a elas dedicam os seus tempos livres.
Mas o seu êxito parece fácil de explicar- vivemos num momento em que ninguém sabe de onde vem aquilo que se usa ou que se come e onde a divisão de trabalho está tão estratificada e diluída na sociedade que sentimos que o trabalho ultra-especializado que a maioria de nós desempenha, para comprar o que usamos e comemos, não tem qualquer relevância prática ou está muito distante da proveniência das coisas de que verdadeiramente precisamos. Falta por vezes um sentido de finalidade no trabalho que contribua para que nos sintamos úteis também enquanto membros da sociedade.
Nada disso existe nestes episódios- os participantes sabem reproduzir salmão, fabricar ferramentas e plantar morangos e dezenas de outras coisas igualmente díspares, os locais de trabalho envolvem toda a região, os dias são completamente diferentes e as aptidões muitas, com a rotação das estações a transformar constantemente o quotidiano dos meses anteriores, obrigando a pôr em acção um novo leque de qualidades.
Nesta série, pessoas normais (são académicos, não agricultores ou artesãos) aprendem a fazer tudo a partir do nada, recolhendo imediatamente os frutos do seu trabalho, ficando tão surpreendidos como nós com o que afinal se consegue fazer à mão.
Cada sucesso provoca no público muita empatia, e por vezes imensa inveja ou alguma tristeza pela delicadeza e engenho de coisas que a modernidade supostamente tornou redundantes ou sem valor.
Imagino que se tenha uma sensação de poder e de realização, ao ser capaz de satisfazer muitas necessidades básicas directamente. Comparando com o actual percurso do trabalho, que orienta quase exclusivamente para o "atalho" da aquisição, imagino também que dê muitas vezes uma incrível sensação de liberdade.
Durante um punhado de episódios, podemos partilhar dessa liberdade.
20.1.11
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