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Waldenomania [IV]

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Erguer-me-ei e partirei já, e partirei para Innisfree,
E uma pequena cabana içarei lá, de barro e vime feita:
Nove alas de feijão aí terei, uma colmeia de obreiras e
Viverei sozinho entre enxames nas clareiras.

E aí terei uma certa paz, porque a paz vem lentamente,
Caindo pelo véu da manhã, até onde o grilo canta;
Onde a meia-noite é trémula, e o meio-dia é roxo brilho,
E a noite, de asas de pardais se completa.

Erguer-me-ei e partirei já, porque sempre noite e dia
Escuto a água do lago folheando murmúrios na rebentação;
Quanto vou pelas estradas ou pelos passeios cinza,
Oiço-a no lúmen profundo do coração.

"A Ilha do Lago de Innisfree" de W.B. Yeats

Waldenomania [III]

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À esquerda está a nova edição portuguesa de "Walking" (a sério) e à direita está uma proposta de capa para o "Walden" do designer JezBurrows. Gostava que o HDT tivesse uma editora portuguesa ao nível do conteúdo que oferece...

Rato do Campo, Rato da Cidade

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 Esta fábula com 2500 anos, do pai das histórias , foi o pretexto de uma composição feita na primária em que eram pedidas duas listas em relação à cidade e ao campo, uma das "coisas boas" e outra das "coisas más" e desde então esta comparação ficou-me na cabeça.

Lembrei-me da história depois deste artigo impressionante no Guardian, que descreve o modo como lentamente muitos fogem da megalópole Atenas (5 milhões de pessoas!), transformada no cenário dos horrores previsíveis de um país em compressão económica a longo prazo.
Face às crescente dificuldades de vários tipos muitos preferem viver a sua recém-encontrada frugalidade num contexto onde ainda podem viver com alguma tranquilidade, como dramatiza o Rato do Campo no final da história:

"Este refinado modo de vida pode ser óptimo para todos os que o apreciam. Mas preferia ter uma crosta de pão em paz e segurança do que todas as coisas refinadas no meio de tanto alarme e terror".

Não faz sentido justificar uma mudança tão drástica pela fuga e receio mas talvez para muitos signifique a descoberta das virtudes de outro tipo de quotidiano.

Léxico [V]: Saltus, Hortus, Ager, Sylvae

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A parte mais interessante de ler a excelente História das Agriculturas do Mundo é compreender como vai evoluindo a interacção do homem com as paisagens cada vez mais humanizadas, no desejo constante de trabalhar com ela e com os processos biológicos dos organismos que a habitam- é impressionante a diversidade de estratégias adoptadas durante as várias eras e geografias.

O autor usa para descrever a agricultura dos climas temperados da Europa uma terminologia latina que não conhecia e que classifica de um modo simplificado a paisagem produtiva em 4 grupos complementares:

Diagrama na pág. 159 do História das Agriculturas do Mundo

Saltus- são as pastagens periféricas que constituem grande parte da envolvente ás quintas e que servem sobretudo para pasto. Tratam-se de solos que não podem ser plantados com culturas porque não são aptos para tal ou porque não se tem a capacidade de os cultivar. Têm um papel importante porque através da transumância  pode-se alimentar facilmente o gado e depois "importar" a sua fertilidade para os estábulos durante a noite, produzindo estrume que depois é concentrado nos Hortus. Ficam normalmente situados em terrenos em declive ou em altitude, com vegetação rasteira ou solos parcialmente erodidos e que necessitam de uma gestão cuidadosa para evitar colonização florestal por um lado e a erosão pelo outro.

Hortus- são as zonas mais férteis e mais próximas dos estábulos e habitações e englobam a vinha, o pomar e as hortas de vegetais, bem como os animais em cativeiro permanente. É o destino final da rama recolhida para forrar as cortes de gado, do composto produzido e outros desperdícios domésticos, que alimentam aves, coelhos e porcos ou são incorporados no solo. É a menor parcela mas também aquela com a produção mais intensiva, contínua e concentrada, e também mais artificial, exigindo cuidados diários.

Ager- É provavelmente a paisagem cujo maneio que sofreu mais mutações ao longo dos séculos, que consistiam sobretudo em diversas estratégias de rotação de culturas. Ocupa sobretudo vales, superfícies planas, zonas irrigadas e os solos mais férteis e microclimas mais favoráveis e sobretudo para a produção de cereais. Durante a maior parte da sua história os diversos esquemas de rotação incluem uma folha com ocupação herbácea, uma de pasto, um pousio (com mobilização do solo) e, finalmente, a cultura pretendida.

Silvus- trata-se da paisagem em que a intervenção humana é menor ou menos aparente, mas também a mais diversa, tendo diversas tipologias em que o factor dominante é a produção florestal, seja para alimentos, forragem ou obtenção de matérias-primas. O seu papel antigo (na Europa) e actual (na maior parte dos países em desenvolvimento) como fornecedor de biomassa enquanto principal fonte de energia e material de construção tornam a sua existência nas imediações da exploração uma necessidade. São Sylvae os Montados com sobreiro, azinheira e oliveiras em Portugal como também o são as florestas de carvalhos utilizadas para caça e recolha de mel da Europa Central. Por todo o lado eram aqui criados os porcos, dizendo-se que se tinha tantos destes animais quantos as devesas das quintas eram capazes de suportar.

Rembrandt "Paisagem com celeiro e rebanho de ovelhas"

Os diversos papéis destas paisagens que são também ricos ecossistemas de vida selvagem foram assim ligeiramente desviados para acolher o homem e a sua subsistência em permanência na natureza envolvente.
Desde a evolução técnica da Agricultura especialmente nos últimos 80 anos que têm vindo a ser simuladas as dávidas destas paisagens:

- Como os animais comem rações sempre estabulados e não pastam no Saltus este é colonizado por florestas jovens e homogéneas mais vulneráveis a fogos ou então entram em processo de erosão.
- Os Hortus não recebem dos animais o composto orgânico, cujos elementos são em vez disso oriundos da extracção mineral e/ou transformação química.
- O Ager está sobretudo dedicado à produção de ração e bio-combustível, de uma forma intensiva que não permite construir a estrutura do solo ou enriquecê-lo sem saturação ou poluição de linhas de água.
- O Silvus deixou de ser gerido como acolhimento para animais que depois se caçavam ou de árvores e arbustos que produziam alimento, para se orientar para monoculturas para produção de óleo ou papel.

Não só parece questionável a sobrevivência destas "substituições" no longo prazo, por ignorarem a dádiva da renovação constante que os processos biológicos permitem em favor de recursos finitos, como julgo que se perdeu um conhecimento profundo em relação à integração da actividade transformadora do homem na paisagem e na Natureza.

Waldenomania

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Conferência "Walden ou a vida nos bosques"

O Programa de Ambiente da Fundação Calouste Gulbenkian inicia, a 6 de Maio, o projecto "Porquê ler os clássicos?" com a conferência "Walden ou a vida nos bosques", no Auditório 3, em Lisboa.
O evento, que começa às 18h00, está apenas sujeito ao limite dos lugares disponíveis e não requer inscrições prévias.

Esta primeira conferência, de um ciclo que se estenderá até Dezembro, é dedicado ao livro de Henry David Thoreau (1854) e terá como orador Viriato Soromenho-Marques e como comentadora Isabel Capeloa Gil.

À mesma hora haverá uma actividade sobre o Walden para os filhos dos participantes dos 6 aos 12 anos de idade.

Léxico [III] : Prosperidade sem Crescimento

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Este é o título de um livro escrito pelo economista Tim Jackson, com o clarificador sub-título de "Economia para um Planeta Finito" (crítica do Guardian aqui). A ideia de que o desenvolvimento económico é uma ferramenta que serve a qualidade de vida das sociedades humanas e não uma espécie de organismo autónomo com valor em si mesmo (vulgo "os mercados", o novo "homem do saco") seria considerada uma blasfémia, não fosse o oportuno timing de publicação após a crise de 2008, quando esta ideia de desenvolvimento começou a trair as suas bases de forma mais evidente.

Ficam evidentes  três limites para este tipo de sistema: o limite a partir do qual a sociedade tem possibilidades de trabalhar enquanto perde qualidade de vida; o limite de diminuição de salários e emprego, extinguindo-se o consumo que suporta o crescimento; e por fim os limites físicos dos recursos finitos em que se baseia a produção e consumo de bens, do crude à produção agrícola.


Como actualmente o novo mantra económico da "austeridade" domina a paisagem política, como o desemprego e redução do poder de compra são evidentes e como os bens energéticos e alimentares sobem consistentemente é oportuno pensar para além do PIB e começar a reflectir sobre os meios de assegurar a prosperidade e qualidade de vida sem recurso ao "crescimento pelo crescimento".
Este livro deixa manifesta a necessidade de rejeitar praticamente toda a política económica vigente, abrindo perspectivas para algo fundamentalmente diferente ( provisoriamente chamado "steady-state economy").
Falta saber a que sociedade corresponde esta política económica baseada na qualidade de vida e se gerações inteiras cuja valorização advém do poder de compra estarão dispostas e integrá-la com naturalidade.

Truísmos [VII]

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"Porque não preservamos somente aquelas espécies de que precisamos, deixando as outras extinguirem-se, já que é esse o seu destino final, como o foi para milhões de outras?
 

(...)

Para considerar este assunto basta colocarmo-nos três questões: 

Que dez espécies de árvores produzem a maioria da polpa de papel do mundo? 
Para cada uma dessas dez espécies, quais são as dez espécies de aves que se alimentam da maioria das suas pragas de insectos, as dez espécies de insectos que polinizam a maioria das suas flores e as dez espécies de animais que mais espalham a maioria das suas sementes? 
De que outras dez espécies dependem respectivamente cada um dos animais, insectos e aves que foram mencionados anteriormente?

Teríamos de ser capazes de responder a cada uma dessas questões impossíveis se fossemos o presidente de uma companhia madeireira que procurasse decidir que espécies se poderia dar ao luxo de permitir que se extinguissem."


O valor da biodiversidade por Jared Diamond em "The Third Chimpanze"