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Aprender, fazendo

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"As crianças são animais de criação extensiva e devem ser deixadas a pastar nos canteiros de morangos no Verão" John Seymour




Nunca entendi porque é que no nosso Ensino Básico transmitimos às crianças muito do conhecimento acumulado pela Humanidade durante milhares de anos como a Língua, Matemática e Ciência e não estendemos o currículo a todas as ferramentas elementares para a compreensão do mundo físico, como a Agricultura, e o conhecimento prático do mundo natural envolvente através da Biologia aplicada.

Este papel terciário ou inexistente na formação clássica, faz depois que certas actividades sejam alvo de alguma diminuição social e cultural, apesar da sua óbvia importância no quotidiano.
O caso mais visível é o da produção de alimentos, mas estende-se a todas as actividades, desde produzir utensílios, vestuário, culinária ou mesmo à construção propriamente dita, basicamente conhecimentos também resultantes da evolução da civilização. Pior ainda, a sua presença nos currículos do saudosismo ruralista  e patriarcal da ditadura manchou para várias gerações a presença destas actividades no ensino.

Fico no entanto curioso com métodos de educação que incluem alguns destes aspectos ou transferem a sala de aula para um contexto exterior e exclusivamente prático, mas não deixo de pensar que as ATLs semi-obrigatórias que agora existem podiam ser passadas (pelo menos parcialmente) com as crianças a aprenderem mais sobre os animais, fenómenos e objectos que os rodeiam.

É fundamental para o seu desenvolvimento e auto-confiança desenvolverem aptidões das quais retirem uma utilidade prática e imediata fora do abrigo de uma sala de aula ou da supervisão constante.
Gostava de um dia integrar na quinta uma forma de educação (em regime de ATL, AEC ou outro) que seja alternativa ou complemento à educação básica das crianças da cidade onde resido.

Não garantia é que voltassem com a roupa limpa a casa.

WWOOF em Portugal: algumas dicas

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Missão cumprida - um dos rebanhos preso para sanitização das patas


Depois das minhas (ainda escassas) experiências pediram-me alguns conselhos sobre o WWOOFing.
É importante ter a noção de que o WWOOF é no fundo uma forma de turismo fora do convencional cujo "financiamento" é pago com trabalho voluntário directamente (diferente em natureza, intensidade e responsabilidades)  em vez do dinheiro ganho com o trabalho formal no resto do ano.

Algumas perguntas úteis para decidir se se deve ir e para onde ir

-O objectivo é fazer wwoof em Portugal ou no estrangeiro? (existem vários sites para cada país)
-Se for em Portugal, alguma zona ou tipo de paisagem específica? (muitas diferenças de trabalho)
-O objectivo principal é aprender algum tipo de actividade, conviver ou visitar uma região?
-Que tipo de trabalhos não são aceitáveis e quais são desejáveis?
-Que carga horária é aceitável? (maioria dos anfitriões pede 4-6 horas diárias, 5-6 dias por semana)
-Querem trabalhar com animais ou querem evitá-lo? 
-Que tipo de alimentação e alojamento preferem? (é fácil encontrar locais vegetarianos)
-É preferível uma quinta com só mais 2-3 pessoas ou uma com mais 15 pessoas? (muito diferente)

Sinais de um bom anfitrião:

- Tem um perfil com muita informação, fotos e localização (só visível após pagamento de inscrição no site)
- Se recebe voluntários há algum tempo tem boas referências
- Responde aos emails e telefona em alguns casos para saber se a pessoa é de facto compatível
- Insiste em saber horas, condições e que tipo de voluntário vai receber e quer recebê-lo bem
- Adapta o voluntário ás necessidades da quinta mas também aos seus interesses e aptidões
- Não trata os wwoofers como mão-de-obra barata, toma as refeições com eles e está disponível para partilhar conhecimentos

Sinais de um bom wwoofer:

- Tem um perfil com foto e informação relevante sobre si e o que pretende com o wwoofing
- Lê cuidadosamente o perfil do anfitrião e faz um pedido específico para este, nunca envia copy/pastes
- Faz só um pedido de anfitrião para cada data, aguarda resposta deste e só manda pedido a outro depois de passar um tempo razoável sem resposta ou depois de resposta negativa
- Aparece na hora, local e data marcada
- Cumpre os horários de levantar, comer e trabalhar e adapta-se a situações diferentes
- Dá-se bem com pessoas (muito) diferentes e respeita os hábitos e modo de vida do anfitrião

Tipos de quintas mais habituais (ter noção que 3 em cada 4 são de estrangeiros):

- O projecto de permacultura/eco (quase sempre muito recente), feito "sem pressas" por pessoas mais ou menos inexperientes. Bom para convívio e turismo, mau para aprender algumas aptidões (como maneio animal) mas bom para partilhar o que é quase sempre uma experiência de vida nova também para os anfitriões. Ás vezes com bastante (demasiada) gente.
- A Quinta de reformados com muito tempo e dinheiro nas mãos, mais perto de um jardim enorme do que uma quinta. Excelente para relaxar, comer bem e trabalhar pouco e convívio mais light, mau para fazer trabalho mais significativo do que somente jardinagem e ter uma experiência mais próxima do espírito da coisa.
- A quinta-empresa, excelente para aprender aptidões e saber trabalhar no quotidiano de uma quinta "a sério", boa para trabalhar, mais difícil para conviver com pessoas ou usar o tempo livre.
- A "armadilha", que são quintas que usam o wwoof para ter trabalho escravo e misteriosamente não são expulsas da rede (existem 3-4 assim ao todo). Felizmente raras e ausentes da minha experiência.
- Todo o resto - se calhar a categoria mais interessante mas mais rara, com pessoas muito diversas e ás vezes uma mistura das melhores qualidades e/ou experiências mais extremas.

Ratinho por uns tempos [II]

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A sala dos Märkl é um museu durante quase 6 meses, desde a época de reprodução das suas 120 cabras Saanen até à quebra no leite que acompanha a chegada do tempo frio. No Verão só tenho alguns minutos para passar por este local de hibernação à hora do almoço e ler os títulos dos livros porque para o sortudo do aprendiz voluntário o dia começa às 7 e acaba às 11 e meia da noite. Para os dois ocupantes permanentes da quinta começa às 5 e acaba perto da 1 da manhã. O voluntário tentou durante dois dias acompanhar o ritmo dos anfitriões e fracassou espectacularmente, parando para evitar que, distraído pelo cansaço ficasse sem um dedo ou, pior, uma das cabras dos anfitriões.

Como todos os trabalhos são duros e rápidos não há espaço para pensar no cansaço ou ir à boleia do seu atrito mental. Estar concentrado evita acidentes por isso nem a enorme monotonia das funções é capaz de quebrar um ritmo mais próximo de um trabalho fabril do que da expectativa bucólica.
Emerge logo um ritmo de tarefas repetidas todos dias: ordenhar; alimentar porcos e galinhas; fazer pequeno-almoço; tratar da horta; tratar do pomar; ordenhar novamente: levar cabras ao pasto; alimentar animais; fazer queijo; lavar queijaria e sala de ordenha; cortar lenha; cozinhar; lavar louça e casa.
A estas somam-se as tarefas alternadas a cada dois dias: roçar mato para cama de gado; fazer a cama do gado; ceifar milho para gado; fazer manteiga ou requeijão; matar animal para próximas refeições, etc, etc.
Quando estive na quinta não realizei nenhuma das tarefas que acompanham o fim dos ciclos produtivos ou estações: matança dos porcos; fazer vinho; salgar carne; ir às compras (uma vez por ano); fazer conservas, entre muitas outras que ficam por aprender.

Num dos dias, em cima do monte de milho ceifado, quase a cair para o lado do tractor e a tornar-me um obituário típico do JN o M. pára a geringonça e cumprimenta um vizinho nativo. Este pergunta se sou português e fica negativamente surpreendido - aparentemente os wwoofers de países ricos fazem isto para fortalecer o carácter enquanto que o português, coitado, deve estar cá para comer um pouco de sopa. "Já vi como eles vivem, vocês são como os Ratinhos!". Ele já conhecia o colchão de rama de ervilha por trás da queijaria onde faço o ninho à noite debaixo da lâmpada mais coberta de traças que já vi. Podia ser do quotidiano mas a intermitência do voo dos insectos naquela pequena divisão provoca um enorme e bem-vindo estado de sonolência.

Ratinho por uns tempos [I]

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Quando cheguei à quinta dos Märkl (coitados, pronuncia-se "Merkel") a maior parte do meu entusiasmo com o WWOOFing tinha sido substituído pelo receio mais básico que aparece quando me apercebo de que estou numa área bastante remota e pouco povoada do país e que se desaparecesse nunca ninguém saberia onde ou com quem estava.

Sair sem ninguém saber para onde nem para o quê é provavelmente a estratégia errada para experiências uma vez que se tratava provavelmente do ponto da minha vida onde não via grandes razões para confiar noutras pessoas. Por isso, mudar-me durante umas semanas para uma quinta que se anunciava "orgulhosamente só" nos seus 90% (!?) de auto-suficiência parecia tudo menos a reacção mais óbvia ou recomendável.

Cinco minutos depois de chegar já sabia que não havia grande tempo para tretas deste tipo, "é Verão e trabalha-se 14 horas por dia", por isso no mesmo gesto que os cumprimentos passaram-me um estojo de facas para a mão, pousaram-me o saco na sala e fomos matar o cabrito que nos tinha acolhido aos saltitões de alegria momentos atrás. Nunca tinha morto realmente nada maior do que uma unha e procurei ter o máximo de sangue frio para a rapidez do processo mas é complicado emular a eficiência e impassividade do T., o filho do outro anfitrião e proprietário, o M., quando cravou um espigão na nuca "para anestesiar" e depois rapidamente me explicou como degolar o animal enquanto o segurava, ignorando o facto de eu estar ainda atónito com esta imersão repentina no ciclo de vida e de morte da quinta.

Ao ajudá-lo a preparar a carcaça para o entregar a um cliente no dia seguinte o T. informa-me que a reentrância de cimento no alpendre onde estávamos a enganchar o ex-carneiro, totalmente aberta para a paisagem, era também o único duche. Seria eu a limpá-lo nessa noite, ao tomar banho com a água aquecida a lenha, que depois carregaria e içaria para um bidão de gasolina vazio e furado por baixo, limpando assim o chão empapado de sangue. A parte difícil é na verdade segurar a lanterna de campismo com a boca para não estar às escuras, mas mesmo com os pés pastosos e cor-de-rosa estar ali exposto às estrelas é uma experiência de humildade e uma distracção muito bem vinda, uma vez que todos problemas se reduzem à mesma proporção que a fragilidade do corpo ao relento. E depois desaparecem por um momento.

As mãos tornadas visíveis

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Todos os objectos têm uma vida secreta por causa da distância que existe hoje entre a sua produção e o seu uso ou consumo final, mas se no caso da produção industrial convencional os bastidores impressionam pela sua escala e complexidade logística no caso da produção manual somos surpreendidos pelo esforço, tempo e grau de conhecimento acumulado que lhe são intrínsecos.
É por isso que não conhecer o processo e os seus protagonistas no caso do trabalho manual é não conhecer totalmente o objecto e fatalmente não lhe atribuir o valor que tem, que merece reconhecimento.

No meio de tantas iniciativas, seminários, projectos, acordos de cooperação e afins para dinamizar as "indústrias criativas" e o "design nacional" surge sempre a frustração por não se verem os resultados concretos de tudo isto e a materialização destes esforços mais ou menos consequentes.

Felizmente existem as excepções que mostram os ciclos que ligam a produção das matérias-primas da paisagem até à produção manual de objectos, objectivo do projecto Saber Fazer, e que levam esse trabalho de registo a um trabalho que tem repercussões, como por exemplo tornar estas técnicas e materiais relevantes na produção de objectos de hoje em vez da habitual perspectiva estática e museificante que impede a renovação e perpetuação deste conhecimento.
Nestas imagens e no restante registo associado fica visível o trabalho de tantas mãos e todo o enorme potencial que contêm.

Saber Fazer
NoussNouss






Bzz

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Não existe maior aliado dos agricultores do que as abelhas, ás quais estes insistem também em roubar anualmente o tesouro culinário, terapêutico e utilitário que produzem.
Por causa disto é inevitável a admiração e a necessidade de aprender a arte de as roubar e preservar, porque apesar dos serviços cruciais que oferece ao Homem este conhecimento vai recuando.

Alertado inicialmente por este vídeo do TED sobre as ameaças enfrentadas pelas colónias (com várias frentes) também fiquei a saber da estranhamente semelhante personalidade dos apicultores, que constatei ao procurar por quem me iniciasse, sem o ter conseguido.

Os apicultores têm muito gosto em partilhar informação e ver reconhecido o valor do seu trabalho, mas muitas reservas quanto a transmitir conhecimentos de forma prática, e as associações profissionais não estão suficientemente activas na formação de novos apicultores. Muitos são já idosos ou receiam o flagelo cada vez mais comum do roubo de colmeias, pelo que se tornam mais reservados.
Felizmente existe esta excelente excepção, de um apicultor que partilha bastantes pormenores e curiosidades do quotidiano da actividade mas através do seu blogue.

Mas eis que acaba a espera - a Casa da Horta no Porto, e a Paredes em Transição organizam cursos práticos de apicultura especialmente direccionados para quem vai definitivamente começar esta prática. Estou com vontade de que a pilhagem às pobres abelhas dure várias décadas, a partir de Junho deste ano. Entretanto, é melhor não me esquecer de uma das primeiras dicas que recebi: nada de braguilhas de botões, é que "se elas puderem entrar então entram de certeza". Dito sem nenhum sorriso ou indício de piada. Gulp.

(para fechar, via Luís)

Resoluções sem soluções

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Sobre a lista do ano passado constato incumprimentos e desvios, mas também estou mais perto ou mais informado em relação a coisas que pretendia fazer.

- A Apicultura ainda não se materializou, mas está perto, idem queijo
- Fiz as primeiras conservas, com sucesso e com vontade de subir o nível e intensidade
- Aumentei o número de receitas mas não encontrei a formação intermediária que pretendia
- Com horta o Vermicompostor não compensa muito
- Apercebi-me do difícil que é ter vestuário contemporâneo e local/de fibras naturais

As novas resoluções a seguir, em textos autónomos.

12 Conselhos simples para a produção agrícola de pequena escala

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Fruto de alguns apontamentos feitos em formações relacionadas com este tema. Os pontos não estão por nenhuma ordem particular, embora uns tenham bem mais importância do que outros.

1. Variedade, consociação, rotação
É sempre essencial utilizar os ciclos naturais que servem como prevenção para quebras de produção por vários motivos, partindo sempre do ciclo regenerativo e de construção do solo fértil, a base de tudo.

2. Integração animal e vegetal
Numa produção artificial e deliberada de alimentos como é a agricultura é necessário usar a complementaridade natural de espécies vegetais e animais para o seu benefício mútuo.

3. Usar os comportamentos naturais das espécies
Respeitar a especificidade das necessidades de cada espécie na sua adaptação ás circunstâncias da exploração é o meio mais económico e fácil de evitar problema.

4. Toda a estação tem os seus frutos
Trabalhando com uma produção diversificada e distribuída em diversos picos durante o ano pode permitir maior resiliência face a quebras ou variações na produção e no ritmo de trabalho.

5. O que faço só poderia ser feito aqui
Especificidade e diferenciação são o mesmo, uma produção adaptada à região permite aproveitar os seus frutos específicos como elemento diferenciador, o que pode incluir produtos DOP/IGP/ETG.

6. Na quinta não existe lixo
A eliminação ou reaproveitamento total de todos os resíduos ou excessos é sinal de que existe uma coordenação e complementaridade correcta entre as diversas produções.

7. O excesso dos vizinhos é a minha sorte
Se a exploração não é capaz de criar este ciclo fechado de reciclagem de materiais orgânicos, é possível incluir produções vizinhas de forma a complementar o ciclo, como transformar refugo frutícola em ração.

8. Clientes têm a chave da casa
Numa produção diferenciada de pequena escala é importante partilhar os processos de produção com os clientes que reconhecem esse valor acrescentado, e promover a visita física ou virtual no marketing.

9. Não estou a competir com a Argentina ou com a Alemanha
Não faz sentido competir com mercados que produzem recorrendo a subsídios maciços ou exploração laboral e ambiental desregrada, mas sim fazer o contrário, procurando um nicho específico.

10. Comer na época é comer sempre fresco
Apostar na qualidade de ingredientes que não dependem da sua facilidade de armazenamento ou ainda na precocidade relativa de algumas culturas exportáveis para outros climas.

11. Aproveitar os residentes da minha terra
O segredo da produção diferenciada pode estar em conhecimentos da gastronomia e agricultura local, e a união de produtores faz a força, podendo reduzir custos de comercialização e processamento.

12. Só se tinha tantos porcos quantos as árvores permitissem
Existem variadas densidades para variados produtos e tipos de produção, a rentabilidade não depende do tamanho mas do grau de investimento e tempo, deixando o local decidir o que produzir.

Desabafo

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A oferta formativa em Portugal para a agricultura distribui-se em 3 campos: formação profissional equivalente ao liceu; cursos ultra-específicos de fim-de-semana para o mais básico dos amadores e licenciaturas ou formações apenas abertas a técnicos.

Não existe absolutamente nenhum meio intermédio de formação prática e intensiva que permita a conversão de mão-de-obra em produtores qualificados sem requerer anos de aulas, não existe acesso a cursos profissionais sem ser para produtores estabelecidos, não existem estágios nem formação prática e profissional sem ser aquela providenciada em programas dirigidos exclusivamente a desempregados de longa duração.

Em muitos países não é preciso ter um curso técnico para trabalhar na manutenção de espaços verdes, nem 2 anos de treino em máquinas agrícolas que nem carta de condução exigem. A solução foi outra:  "on-the-job training", que permite aprender e fazer rapidamente e ao mesmo tempo e que permite que a mão-de-obra disponível possa rapidamente começar a trabalhar.

Esta formação para o certificado tem que ser complementada por cursos mais pragmáticos que permitam trazer rapidamente mais gente para a Agricultura.

"Da Terra"

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@ NoussNouss

Bom, parte da colheita de tomate não aproveitada por mau planeamento

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Ver, Saber, Fazer

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Admito que em relação ao conhecimento das artes rurais tradicionais o meu interesse pessoal surge menos da importância patrimonial e etnográfica do que da admiração em relação à capacidade pessoal de produzir de raiz.

Por este motivo invejo menos quem Sabe Fazer pelo facto de ser ter tornado, pela passagem do tempo, numa veneranda personagem do museu vivo da nossa cultura, do que pelo facto de que quem consegue criar com as mãos objectos essenciais para o quotidiano é dono/a de um poder pessoal que imuniza face a técnicas de massificação que supostamente tornam obsoleto tal conhecimento.

Um destes casos é a produção do Linho, que testemunhei em pleno Minho, com ajuda do Grupo Folclórico da Corredoura, que permitem que se faça mais do que assistir e se possa (com a minha gratidão) durante algumas horas participar na colheita desta herbácea.
Esta visita coincidiu oportunamente com uma altura em que me apercebi que foram outrora importantes para o sucesso de muitas comunidades agrícolas não só as boas colheitas de cereais e forragem como a produção de plantas têxteis, sobretudo o Linho mas também o Canhâmo.

Testemunhar isto é um dos motivos pelos quais tenho a sorte de por vezes acompanhar a Alice nas muitas recolhas que já fez da produção de objectos com as mãos, esperando ansiosamente pelas muitas outras que decorrem ou que estão agendadas.

"O Linhal" no Saber Fazer

Se escolhesse agora uma Universidade...

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@landinstitute

Mmmm, já sei fazer requeijão (falta a conserva de pimentos)

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Obrigado Horta da Formiga

Mãos que libertam

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No post anterior fica o primeiro episódio do regresso desta série, desta vez 40 anos mais à frente, na ante-câmara da agricultura motorizada. Parece um oxímoro: um reality show didáctico.
O enorme sucesso da primeira série no Reino Unido foi assumido pela produtora BBC como inesperado, o que não é surpreendente uma vez que o programa foca frequentemente técnicas próximas de um fulminante mas discreto desaparecimento, às vezes cingidas a um punhado de sobreviventes que a elas dedicam os seus tempos livres.

Mas o seu êxito parece fácil de explicar- vivemos num momento em que ninguém sabe de onde vem aquilo que se usa ou que se come e onde a divisão de trabalho está tão estratificada e diluída na sociedade que sentimos que o trabalho ultra-especializado que a maioria de nós desempenha, para comprar o que usamos e comemos, não tem qualquer relevância prática ou está muito distante da proveniência das coisas de que verdadeiramente precisamos. Falta por vezes um sentido de finalidade no trabalho que contribua para que nos sintamos úteis também enquanto membros da sociedade.

Nada disso existe nestes episódios- os participantes sabem reproduzir salmão, fabricar ferramentas e plantar morangos e dezenas de outras coisas igualmente díspares, os locais de trabalho envolvem toda a região, os dias são  completamente diferentes e as aptidões muitas, com a rotação das estações a transformar constantemente o quotidiano dos meses anteriores, obrigando a pôr em acção um novo leque de qualidades.
 Nesta série, pessoas normais (são académicos, não agricultores ou artesãos) aprendem a fazer tudo a partir do nada, recolhendo imediatamente os frutos do seu trabalho, ficando tão surpreendidos como nós com o que afinal se consegue fazer à mão.
Cada sucesso provoca no público muita empatia, e por vezes imensa inveja ou alguma tristeza pela delicadeza e engenho de coisas que a modernidade supostamente tornou redundantes ou sem valor.

Imagino que se tenha uma sensação de poder e de realização, ao ser capaz de satisfazer muitas necessidades básicas directamente. Comparando com o actual percurso do trabalho, que orienta quase exclusivamente para o "atalho" da aquisição, imagino também que dê muitas vezes uma incrível sensação de liberdade.
Durante um punhado de episódios, podemos partilhar dessa liberdade.

À procura de $$$

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Mesmo espartana, a experiência de dois anos de Thoreau teve como uma base uma instalação de custo zero (os terrenos eram da família) e algumas poupanças que, mesmo irrisórias, participavam quotidianamente naquilo que não podia produzir (cereais, óleos e sal, sobretudo).
A auto-suficiência é um ideal bastante heróico e motivador mas não é totalmente realista se o que se pretende é uma conciliação da máxima qualidade de vida com o mínimo de "custos de manutenção".
É uma relação tensa, cujos atritos são difíceis de gerir, mas a síntese faz tudo valer a pena- mesmo se, como diz o T. , podemos não acumular riqueza enquanto nos tornamos "milionários de tempo".
E como ganhar o suficiente para cobrir o que for necessário em relação a saúde, educação, lazer e também o que não se produz?

Foram surgindo umas dicas ao longo do tempo:

CSA: Criar uma cooperativa com um cabaz mensal de determinado produto excedente, que dadas as pequenas dimensões da exploração teria que ser algo de valor acrescentado, como:


Produção Extensiva de Carne : Teria que ser de gado miúdo e de baixas exigências de alimentação, como caprinos ou ovinos, se houvesse nas imediações pasto disponível em baldio ou em arrendamento. Ou então aves, em combinação com pomar. Seria sempre em pequena escala, para cobrir gastos em alimentação, sobretudo.


Produtos Transformados: Produtos passíveis de serem fabricados com um pequeno excedente de produção, como mel, queijo, molhos, etc.Isto agora que a legislação permite vender e fazer isto em casa.


Conservação de espécies Autóctones: A par do espaço disponível e da produção de produtos de origem animal, poderiam ser escolhidas espécies autóctones que são alvo de apoios da PAC, alguns são fornecidos e gratuitamente controlados por associações específicas.


Rações para MPB: Com o contacto com pequenos produtores e amadores constata-se facilmente que nem as rações disponíveis para aves são económicas nem é possível adquirir lotes sem presença de OGM ou cereais de má qualidade.


Trabalhos Sazonais de Cultura: Por todo o país existem épocas em que se pode complementar o rendimento com a apanha de uva, laranja, cereja, azeitona, etc nas explorações de outros.


Plantas Aromáticas Secas: É um sector de valor acrescentado em crescimento no país, uma vez que o clima providencia épocas de crescimento mais longas e pode ser exportado já seco. Existe um momento propício à constituição de cooperativas deste tipo de produção.


Banca de Frescos: É a solução tradicional dos produtores, mas sofre de concorrência directa e intensa tanto de agentes locais como internacionais o que obriga à criatividade e conveniência- em vez de se venderem os legumes isolados, fazer molhos para sopa (tipo "ramo creme de alho françês para 3 pax"), saladas frescas já feitas, ou a vender transplantes de rebentos no início das épocas, por exemplo.


Serviços de Biodiversidade: É difícil explorar o mercado de donativos e serviços públicos, mas podem ser muito compensatórios (em satisfação pessoal e bancária) - podem ir do controlo de fogos usando gado caprino,  à plantação de árvores reconstituição de habitats, etc. Tem que haver experiência e know-how técnico demonstrado e fundamentado para conquistar confiança.


Formação: Um local pode ser o palco de formações sobre artes rurais de qualquer tipo, não apenas agrícolas e não apenas restringidas ao que é praticado ou que se conhece, um bom programa para acompanhar outras fontes de rendimento como:


Turismo de Natureza: Este tipo de turismo certificado abrange várias tipologias, desde as mais convencionais Casas de Campo, até ao Glamping sazonal e o agro-turismo. Tem condições específicas para ser bem sucedido, nomeadamente estar numa zona classificada (pelo menos Rede Natura) que seja imediatamente acessível a partir do empreendimento e outras valências como refeições e zona para banhos.


Dentro destas hipóteses existe uma diversidade enorme de exigências em termos de localização, área, acesso a mercados, competências, etc. mas não é de todo impossível a convivência de quase todos, mantendo o fundamental: um quotidiano variado e gratificante e a colmatação de necessidades económicas (e não só),  fazendo aquilo de que se gosta.

Pequenas Resoluções para um Ano Novo

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- Aprender Apicultura/ser almofada de alfinetes humana

- Fazer conservas e secagem como deve ser e em quantidade

- Aprender a cozinhar a sério, para saber mais do que 10 receitas

- Fazer um vermicompostor, para me redimir de todos os que comi para impressionar colegas de primária

- Aumentar a produção da horta, para pelo menos garantir barrigada de morangos

- Comprar um conjunto de roupa -casaco, camisa, calças- feito à mão/local (botas já tenho)

- Aprender a fazer queijo curado, possivelmente da ordenha ao prato

- Desistir apenas de menos de metade das resoluções assumidas