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Ratinho por uns tempos [IV]

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Nesta primeira quinta onde fui "ratinho beirão" ou "caramelo de ir e vir" os meus anfitriões de raízes estrangeiras despertaram-me a curiosidade inicial tanto pelo enorme conhecimento que têm do mundo que os rodeia e do qual de facto dependem absolutamente como pelas maravilhosas contradições do seu estilo de vida, que por sua vez salientam as contradições do estilo de vida praticamente oposto, que praticamos na nossa maioria, se quisermos ser auto-críticos.

Não entendo estas contradições como uma fraqueza nas suas motivações, especialmente se se tiver em conta que os objectivos originais, conscientemente ou não, eram (são) admissivelmente idealistas e provocadores e acho até que está precisamente aí o seu valor - em viver intencionalmente e com um objectivo alheio a qualquer expectativa externa.

Que contradições relativas são estas? Querem a liberdade total dos patrões e do escritório mas não há patrão mais exigente e inclemente que a pecuária, onde a liberdade vai até onde a limpeza dos recintos, alimentação das crias e risco de mastites deixam ir.
Querem a independência total de uma economia baseada em combustíveis fósseis mas é impraticável ter uma queijaria legalizada sem instalações eléctricas e geradores, o que leva ao paradoxo (cruel para o wwoofer mimado) de existir luz e aquecimento na queijaria mas não em casa.

Foi este ideal de auto-suficiência que esteve na origem da mudança para Portugal, com a sua terra barata e longa época produtiva. Durante algum tempo viram este país só através destas características, até descobriram que facilmente passariam fome sem a ajuda dos vizinhos portugueses, com os quais têm agora uma relação amistosa, baseada também na troca de produtos e serviços.

Muitas das pessoas que os ensinaram a arranjar porcos e borregos, a plantar as culturas mediterrânicas e a adaptarem-se à cultura estão hoje idosos, mas têm uma retribuição porque bastantes baldios da envolvente são limpos por estes estrangeiros. Através dos pelo menos 4 terrenos com milho (quase 4 hectares ao todo) que lhes são cedidos e, porque pouco dinheiro têm ou querem ter, trocam muito com os vizinhos, especialmente o requeijão e a carne que não podem vender através da queijaria.

E assim de repente a auto-suficiência heróica foi substituída pela descoberta mais humilde e valiosa da interdepência de todas as coisas e pessoas.

Album [XVIII]: Eric Valli

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 "Off the Grid"






Ratinho por uns tempos [III]

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Toda a frugalidade do modo de vida na quinta dos Märkl contrasta com a comida que comem, central a tudo o que rege a vida quotidiana. O objectivo fundamental é a auto-subsistência total, que atingem nos produtos vegetais e animais através da produção própria, complementada pela troca (por exemplo do sal grosso ou do azeite, uma vez por ano). A actividade da queijaria paga tudo aquilo em que não se pode evitar o vil metal.

Regem-se também por algumas regras simples que estão implícitas à paixão e orgulho que têm pela sua autarcia, apesar de todas as suas contradições: os ingredientes são sempre o que está mais fresco e em maior quantidade (só comem na época); atacam as conservas entre Outubro e Março (não cheguei a provar ou a ver mais do que as sobreviventes do ano anterior); matam e comem um animal que é "esticado" por várias refeições (quase uma semana um borrego, 3 dias um frango); metade das refeições são (ovo-lacto) vegetarianas.

É possível que seja do apetite do trabalho intenso mas foram inquestionavelmente algumas das semanas em que melhor comi na minha vida e em que felizmente recuperei algum peso dos quase 8 kg que perdi por motivos de saúde nos dois meses anteriores, quando receava que a minha estadia como voluntário poderia agravar esse problema.



A rotina alimentar do Verão:

- O pão é feito no forno a cada 2 dias, uma mão de massa é embrulhada num pano e enfiada na gaveta para fermentar e juntar à massa seguinte. O pão é sempre diferente e sempre excelente porque o hiperactivo M. aborrece-se e põe lá azeitonas, figos, oregãos, presunto e o que mais lhe apetecer. Faz-se ao fim da tarde, fermenta até ao jantar, vai para o fogo a seguir à refeição, de manhã ainda está quente.

- Os sub-produtos da produção de queijo como o soro vão para fazer manteiga fresca (de longe a melhor e mais leve manteiga que já provei, branquíssima) ou requeijão, a moeda de troca principal com os vizinhos e que vai sempre temperado com ervas frescas e limão. As duas formas de aproveitamento do soro são feitas todos os dias, alternadamente e por vezes já depois da meia-noite. O requeijão fresco é de longe melhor que o seu queijo curado na minha opinião mas a sua comercialização formal é-lhes interdita por causa das exigências sanitárias. Em vez disso é moeda de troca com vizinhos, por tabaco por exemplo.

- O sumo de eleição é um concentrado de uva que procurei convencê-los a vender também com o queijo mas não acreditaram que fosse assim tão bom. Não conheço qualquer mistela de pacote que lhe faça frente e eles não fazem ideia da pouca concorrência que têm por isso desconsideram o que fazem. Pediram-me para deixar de beber uma garrafa por dia (que tinham oferecido mas que não pensavam de que viesse a gostar tanto) porque também a usam para troca.

- Todos dias ao final da tarde vai-se espreitar a horta e recolhe-se o que está demasiado grande, caído, estragado ou em excesso para a alimentação da noite dos animais e uma porção de cada tipo de vegetal (leguminosa, couve, raíz, fruta) para o jantar e almoço do dia seguinte. Ao jantar coze-se ou assa-se, no almoço do dia seguinte salteia-se.

- Fora uma vez ou outra no Inverno nunca fazem sopa, que consideram uma incompreensível obsessão portuguesa. Como português foi a única coisa de que senti falta, e com um pão com queijo é uma refeição em si mesma, fácil e rápida de fazer e que aproveita absolutamente tudo, desde a água a restos de legumes e carne. "Comida de bébé", dizem os anfitriões.

Resoluções sem soluções

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Sobre a lista do ano passado constato incumprimentos e desvios, mas também estou mais perto ou mais informado em relação a coisas que pretendia fazer.

- A Apicultura ainda não se materializou, mas está perto, idem queijo
- Fiz as primeiras conservas, com sucesso e com vontade de subir o nível e intensidade
- Aumentei o número de receitas mas não encontrei a formação intermediária que pretendia
- Com horta o Vermicompostor não compensa muito
- Apercebi-me do difícil que é ter vestuário contemporâneo e local/de fibras naturais

As novas resoluções a seguir, em textos autónomos.

Album [XI]: Recessão

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Reportagem da Associated Press sobre a crise nos EUA desde 2008.

 " Kate Cramer-Herbst cleans out a vegetable box in Detroit, April 10, 2010. Detroit, which revolutionized manufacturing with its auto assembly lines, could once again be a model for the world as residents transform vacant, often-blighted land into a source of fresh food. No city seems to have as much potential for urban farming as Detroit, where land is cheap, empty lots are plentiful, and residents are desperate for jobs. (AP Photo/Carlos Osorio)"



"In this photo taken Thursday April 22, 2010, Bonnie the cow is milked by Erik Ramfjord, at the Douglas Ranch in Paicines, Calif., Ramfjord is a member of World Wide Opportunities on Organic Farms, a group with 9,000 members commonly known by a variation of their acronym, woofers. It's kind of an Outward Bound for agriculture, the new millennium version of the traveling hobo willing to work for a meal. (AP Photo/Tracie Cone)"

"Shelves are stocked at the Chittenden Emergency Food Shelf in Burlington, Vt., Wednesday, Nov. 25, 2009. Around Vermont, demand is up at food shelves as Vermonters lose jobs, try to make ends meet on unemployment and struggle with heating, food and fuel costs. Many charities say they have been able to meet the demand with donations from food drives at businesses, church groups and schools, but wonder if they'll raise enough during the upcoming holiday season. (AP Photo/Toby Talbot)"


"In this Jan. 28, 2009, file photo after an overnight snowfall, Neil Floyd starts a fire to keep warm outside his tent in the small tent city, where he lives with other homeless people in Camden, N.J. More than 37 million Americans live in poverty, and the vast majority of them are in line for extra help under the giant economic stimulus package coming out of Congress. (AP Photo/Mel Evans, file)"

via

TV Rural [XV] : "Jardins pela Vitória"

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Na sequência deste post aqui fica o anúncio original dos Victory Gardens dos anos 40-50 nos EUA, uma campanha pela produção doméstica de carne, ovos, fruta e hortícolas para subsistência com o objectivo de ajudar o esforço militar e combater a pobreza e escassez de bens essenciais na sociedade civil (surgiu na sequência da Grande Depressão).




Hoje precisamos de uma versão deste modelo a ser encorajada da mesma forma, uma vez que a continuidade de uma recessão é clara no médio prazo e os bens alimentares encarecem continuamente, sendo importante reduzir algumas importações de forma significativa, uma vez que se espera fortalecer a economia pela via do equilíbrio da balança comercial. Deveria existir também uma "guerra" em curso contra a obesidade, sedentarismo e doenças cardio-vasculares.

"Nem saúde Nem sustento"

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O título é deste amigo.



Um trabalho, mesmo um que é realizado por vocação, deveria permitir uma subsistência, ou seja, ser capaz de cobrir despesas com um lar, alimentação, energia, água, roupa e meios de deslocação. Também deveria garantir, para fazer sentido, alguma poupança, para investir num projecto pessoal ou começar uma família.
Por fim, deveria oferecer autonomia e algum tempo para a viver.

Quando o trabalho não dá a autonomia nem tempo e quando não permite pôr de lado o suficiente para investir num futuro, desaparece qualquer sentido de finalidade. Quando de forma mais grave obriga a escolher entre comer ou aquecer a casa, entre pagar renda ou uma deslocação necessária e a própria subsistência é posta em causa, sente-se com grande intensidade confusão e a decepção.

Quando apesar de se ter um trabalho se deixa de ter acesso a estas coisas surgem questões em relação ao sentido sequer faz aquilo que é fundamentalmente o estilo de vida da quase globalidade da sociedade onde crescemos e aquilo para que fomos educados toda a vida. Parecem não existir alternativas realistas ao fracasso ou à sub-existência neste esquema. Se o trabalho então nem sequer existe, o sentido de futilidade e fracasso é total.

Trabalhamos durante toda a vida para comprar um futuro, qualidade de vida e subsistência, mas acabamos  muitas vezes por perde-los por vários motivos no final ou durante este percurso.
Se tivermos ao nosso alcance os meios para trabalharmos directamente para a nossa subsistência, futuro, e tempo para o viver provavelmente estamos a abdicar da poderosa promessa de liberdade das preocupações mundanas que nos é prometida com um contrato de trabalho a tempo indeterminado, um crédito à habitação, um seguro, dinheiro na conta e um plano de reforma.

Mas alguma vez a tivemos realmente ao nosso alcance?

Waldenomania [IV]

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Erguer-me-ei e partirei já, e partirei para Innisfree,
E uma pequena cabana içarei lá, de barro e vime feita:
Nove alas de feijão aí terei, uma colmeia de obreiras e
Viverei sozinho entre enxames nas clareiras.

E aí terei uma certa paz, porque a paz vem lentamente,
Caindo pelo véu da manhã, até onde o grilo canta;
Onde a meia-noite é trémula, e o meio-dia é roxo brilho,
E a noite, de asas de pardais se completa.

Erguer-me-ei e partirei já, porque sempre noite e dia
Escuto a água do lago folheando murmúrios na rebentação;
Quanto vou pelas estradas ou pelos passeios cinza,
Oiço-a no lúmen profundo do coração.

"A Ilha do Lago de Innisfree" de W.B. Yeats

Nerdgasm na Cozinha Sustentável

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Sou frequentemente o encarregado da cozinha cá por casa e posso dizer que é uma actividade que faço cheio de gosto e boa-vontade, só para não me demorar muito na descrição dos resultados.
Cozinhar frequentemente evidenciou a forma como isso afecta tanto a sustentabilidade como a economia doméstica: mais de 30% da comida é deitada fora; a maior parte da energia final de uma refeição foi usada na sua compra, refrigeração e confecção; 40% de todos os resíduos domésticos são compostáveis e, falando por nós, a alimentação feita em casa é a base da poupança possível, mesmo assim ocupando mais de 30% do nosso orçamento total. E tudo isto sem sequer ter em conta as opções que se fazem em termos de compras, que são outro universo.

Com esta maior consciência do impacto da cozinha tenho prestado mais atenção a meios de reduzir os desperdícios e o uso de recursos, ao mesmo tempo que procuro soluções menos convencionais, como nestes exemplos:

Esquerda: Field Kitchen da Kanz Outdoors Direita:  Are You Wheel? de Christoph Thetard






À esquerda está o sonho molhado dos campistas xoninhas e comodistas como eu, com tudo embutido numa mala que faz uma bem portuguesa e azeiteira paragem à beira da estrada para Arroz de Frango parecer um evento gourmet. Gosto da portabilidade para estadias de mais de um fim-de-semana.
À direita está o item número 1 para a minha lista de Natal: uma ciclo-cozinha que consiste num móvel com roda e pedais que põem a trabalhar um conjunto de electrohumanodomésticos já familiares.
A bicicleta já é a melhor invenção de sempre porque consiste numa simbiose eficiente entre homem e máquina, assim até puré faz! Simplesmente imbatível.
Aqui em baixo estão mais dois objectos de que não prescindiria se tivesse acesso a um jardim.



À esquerda está basicamente uma pia de cozinha amovível, que permite levar a água que se gastou (mas não contaminou) para o compostor, evitando perdas.
O segundo é um espectacular fogão a lenha  (montes de vídeos de americanos assustadores sobre ele), que ganhou um concurso para uma solução económica e ultra-eficiente, que permitisse rapidamente ferver a água e cozinhar com o mínimo de combustível. É agora enviado aos milhares para zonas que sofrem com desflorestação intensa devido ao uso de biomassa para quase tudo.

A par da minha solução predilecta de saneamento, parecem itens interessantes para um pequeno poiso "fora da rede", que use um mínimo de recursos sem recorrer à frugalidade de um buraco no chão e uma fogueira (desculpa HDT).

Estratégias Peri-Urbanas

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Há exactamente 2 anos participei pessoalmente numa das minhas primeiras iniciativas ambientais, num assunto que poucos dias antes desconhecia e para o qual fui alertado pela Campo Aberto e pela APVC.
Tratava-se de uma caminhada/protesto pelo Vale do Coronado, na Trofa, com o intuito de chamar a atenção para a destruição de uma das últimas grandes manchas férteis e contínuas localizadas dentro da AMP.

Uma área de 160 Ha de solo arável de classe A, integrado na RAN dos concelhos da Maia e Trofa está destinado à implementação de uma Plataforma Logística Estratégica cuja existência e necessidade não é discutida pelas associações envolvidas no protesto mas somente a sua localização.
Estranhamente um projecto inicialmente tão benéfico e lucrativo sofreu um adiamento em 2008.

Os motivos para esta escolha bizarra de implantação são óbvios: são comprados terrenos exclusivamente agrícolas a baixo preço (por comparação à zona industrial da Maia, uma localização muito mais favorável mas mais cara), que depois são transformados em solos urbanos/industriais após a angariação de "projecto estruturante para os concelhos e população".
Neste processo instantâneo de alteração de classificações do solo são feitas fortunas, porventura capazes de persuadir os intervenientes políticos a cooperarem com este desastre que de estratégico tem pouco.

Uma verdadeira visão estratégica levaria à protecção completa destes solos férteis periurbanos e na sua imediata devolução à produção agrícola de baixos de recursos, para a construção de uma reserva alimentar estratégica local.
É em locais como o Vale do Coronado que reside não só a prosperidade das cidades como a sua resiliência a choques económicos, sociais, ambientais, energéticos e do mercado agrícola internacional.

Truísmos [VIII]

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"In Portuguese mountain areas traditional and sustainable forms of agriculture are on the edge of economic viability, mainly due to agricultural and trade policies which apply economic theories from the industrial sector to agriculture. 
As a result, small-scale and family-farmers are forced out of business and they become dependent on the global food-system and markets, when they have no alternative income sources in the rural areas where they live. 

At the same time, environmental degradation, unemployment and health epidemics related to urban lifestyles spread and more and more people wish to escape unsatisfying jobs and to reconnect to the land. 
An economic system that prevents people form satisfying their livelihood needs directly from the land ultimately creates artificial hindrances to human well-being. 
It is essential that sustainable land-based livelihoods are properly valued and become viable again. 

For this to happen both policy change and grassroots action are needed. Policies need to consistently support the aim of proximity-based sustainable agri-food systems, i.e. regional food sovereignty, and interested individuals need opportunities to learn how to make a living from sustainable agriculture and other land-based activities."

in Viragem

Beans are Bullets, Potatoes are Powder

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O slogan do título foi usado numa das agressivas campanhas em prol da auto-produção por parte dos países anglófonos durante a 2º Guerra Mundial, que se estendeu por outros meios, como os cartazes que agora aparecem cada vez mais sempre que se fala de locavorismo ou de alimentação sustentável (e que tiveram aqui uma actualização).
Este é um dos melhores e mais convincentes exemplos de design de intervenção, sem grandes devaneios pictóricos e bastante denso em informação (adoro o "Please Post Conspicuously") e as variedades escolhidas obedecem criteriosamente ao máximo de valor alimentício na menor quantidade de espaço de cultivo.

Um embargo a importações alimentares causado por uma guerra é uma situação agora bastante invulgar por estas bandas e algo que associamos a tempos mais bárbaros em que era verosímil um conflito em grande escala à nossa porta, mas foi o único verdadeiro desafio que alguma vez se colocou ao modelo de agricultura industrial da "revolução verde".
No fundo foi um duplo desafio: as economias de escala que apoiam este tipo de agricultura revelaram-se dependentes de um mercado global, baseado na livre troca e transporte de bens, e a intrínseca complexidade laboral e enorme dimensão estrutural deste modelo mostraram-se incapazes de se adaptar a uma realidade de escassez de recursos (desviados para a máquina de guerra) e de descentralização da produção.

Basicamente, como em vários aspectos de outras indústrias, foi preciso fazer muito com pouco e em pouco tempo ideias totalmente estranhas à época (e que ainda hoje fazem franzir muitos sobrolhos), foram recuperadas ou inventadas de raiz.
Nasceu assim a primeira campanha de partilha de boleias, a primeira campanha de recuperar vestuário, a primeira campanha de material de escritório (!) e, obviamente, a primeira campanha de produção própria de alimentos nos quintais e jardins (acompanhados da conservação).

O título dramatiza o que era o verdadeiro "segundo teatro de guerra" do conflito, travado nas cozinhas e quintais, exprimindo a constante pressão logística para abastecimento da população e exército.
Quando falhou o modelo vigente de produção agrícola, cujas vulnerabilidades mencionadas acima aumentaram exponencialmente nestes 60 anos que passaram, os feijões foram balas e as batatas, pólvora.

Mãos que libertam

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No post anterior fica o primeiro episódio do regresso desta série, desta vez 40 anos mais à frente, na ante-câmara da agricultura motorizada. Parece um oxímoro: um reality show didáctico.
O enorme sucesso da primeira série no Reino Unido foi assumido pela produtora BBC como inesperado, o que não é surpreendente uma vez que o programa foca frequentemente técnicas próximas de um fulminante mas discreto desaparecimento, às vezes cingidas a um punhado de sobreviventes que a elas dedicam os seus tempos livres.

Mas o seu êxito parece fácil de explicar- vivemos num momento em que ninguém sabe de onde vem aquilo que se usa ou que se come e onde a divisão de trabalho está tão estratificada e diluída na sociedade que sentimos que o trabalho ultra-especializado que a maioria de nós desempenha, para comprar o que usamos e comemos, não tem qualquer relevância prática ou está muito distante da proveniência das coisas de que verdadeiramente precisamos. Falta por vezes um sentido de finalidade no trabalho que contribua para que nos sintamos úteis também enquanto membros da sociedade.

Nada disso existe nestes episódios- os participantes sabem reproduzir salmão, fabricar ferramentas e plantar morangos e dezenas de outras coisas igualmente díspares, os locais de trabalho envolvem toda a região, os dias são  completamente diferentes e as aptidões muitas, com a rotação das estações a transformar constantemente o quotidiano dos meses anteriores, obrigando a pôr em acção um novo leque de qualidades.
 Nesta série, pessoas normais (são académicos, não agricultores ou artesãos) aprendem a fazer tudo a partir do nada, recolhendo imediatamente os frutos do seu trabalho, ficando tão surpreendidos como nós com o que afinal se consegue fazer à mão.
Cada sucesso provoca no público muita empatia, e por vezes imensa inveja ou alguma tristeza pela delicadeza e engenho de coisas que a modernidade supostamente tornou redundantes ou sem valor.

Imagino que se tenha uma sensação de poder e de realização, ao ser capaz de satisfazer muitas necessidades básicas directamente. Comparando com o actual percurso do trabalho, que orienta quase exclusivamente para o "atalho" da aquisição, imagino também que dê muitas vezes uma incrível sensação de liberdade.
Durante um punhado de episódios, podemos partilhar dessa liberdade.

À procura de $$$

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Mesmo espartana, a experiência de dois anos de Thoreau teve como uma base uma instalação de custo zero (os terrenos eram da família) e algumas poupanças que, mesmo irrisórias, participavam quotidianamente naquilo que não podia produzir (cereais, óleos e sal, sobretudo).
A auto-suficiência é um ideal bastante heróico e motivador mas não é totalmente realista se o que se pretende é uma conciliação da máxima qualidade de vida com o mínimo de "custos de manutenção".
É uma relação tensa, cujos atritos são difíceis de gerir, mas a síntese faz tudo valer a pena- mesmo se, como diz o T. , podemos não acumular riqueza enquanto nos tornamos "milionários de tempo".
E como ganhar o suficiente para cobrir o que for necessário em relação a saúde, educação, lazer e também o que não se produz?

Foram surgindo umas dicas ao longo do tempo:

CSA: Criar uma cooperativa com um cabaz mensal de determinado produto excedente, que dadas as pequenas dimensões da exploração teria que ser algo de valor acrescentado, como:


Produção Extensiva de Carne : Teria que ser de gado miúdo e de baixas exigências de alimentação, como caprinos ou ovinos, se houvesse nas imediações pasto disponível em baldio ou em arrendamento. Ou então aves, em combinação com pomar. Seria sempre em pequena escala, para cobrir gastos em alimentação, sobretudo.


Produtos Transformados: Produtos passíveis de serem fabricados com um pequeno excedente de produção, como mel, queijo, molhos, etc.Isto agora que a legislação permite vender e fazer isto em casa.


Conservação de espécies Autóctones: A par do espaço disponível e da produção de produtos de origem animal, poderiam ser escolhidas espécies autóctones que são alvo de apoios da PAC, alguns são fornecidos e gratuitamente controlados por associações específicas.


Rações para MPB: Com o contacto com pequenos produtores e amadores constata-se facilmente que nem as rações disponíveis para aves são económicas nem é possível adquirir lotes sem presença de OGM ou cereais de má qualidade.


Trabalhos Sazonais de Cultura: Por todo o país existem épocas em que se pode complementar o rendimento com a apanha de uva, laranja, cereja, azeitona, etc nas explorações de outros.


Plantas Aromáticas Secas: É um sector de valor acrescentado em crescimento no país, uma vez que o clima providencia épocas de crescimento mais longas e pode ser exportado já seco. Existe um momento propício à constituição de cooperativas deste tipo de produção.


Banca de Frescos: É a solução tradicional dos produtores, mas sofre de concorrência directa e intensa tanto de agentes locais como internacionais o que obriga à criatividade e conveniência- em vez de se venderem os legumes isolados, fazer molhos para sopa (tipo "ramo creme de alho françês para 3 pax"), saladas frescas já feitas, ou a vender transplantes de rebentos no início das épocas, por exemplo.


Serviços de Biodiversidade: É difícil explorar o mercado de donativos e serviços públicos, mas podem ser muito compensatórios (em satisfação pessoal e bancária) - podem ir do controlo de fogos usando gado caprino,  à plantação de árvores reconstituição de habitats, etc. Tem que haver experiência e know-how técnico demonstrado e fundamentado para conquistar confiança.


Formação: Um local pode ser o palco de formações sobre artes rurais de qualquer tipo, não apenas agrícolas e não apenas restringidas ao que é praticado ou que se conhece, um bom programa para acompanhar outras fontes de rendimento como:


Turismo de Natureza: Este tipo de turismo certificado abrange várias tipologias, desde as mais convencionais Casas de Campo, até ao Glamping sazonal e o agro-turismo. Tem condições específicas para ser bem sucedido, nomeadamente estar numa zona classificada (pelo menos Rede Natura) que seja imediatamente acessível a partir do empreendimento e outras valências como refeições e zona para banhos.


Dentro destas hipóteses existe uma diversidade enorme de exigências em termos de localização, área, acesso a mercados, competências, etc. mas não é de todo impossível a convivência de quase todos, mantendo o fundamental: um quotidiano variado e gratificante e a colmatação de necessidades económicas (e não só),  fazendo aquilo de que se gosta.

Pequenas Resoluções para um Ano Novo

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- Aprender Apicultura/ser almofada de alfinetes humana

- Fazer conservas e secagem como deve ser e em quantidade

- Aprender a cozinhar a sério, para saber mais do que 10 receitas

- Fazer um vermicompostor, para me redimir de todos os que comi para impressionar colegas de primária

- Aumentar a produção da horta, para pelo menos garantir barrigada de morangos

- Comprar um conjunto de roupa -casaco, camisa, calças- feito à mão/local (botas já tenho)

- Aprender a fazer queijo curado, possivelmente da ordenha ao prato

- Desistir apenas de menos de metade das resoluções assumidas

Elogio da "Casinha"

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"So precious was manure that Chinese farmers stored it in burglarproof containers. The polite thing to do after enjoying a meal at a friend's house was to go to the bathroom before you departed."


No qual o autor prossegue com assuntos escatológicos.
Uma dos motivos pelo que estou grato por viver no século XXI é a canalização moderna (lamento, Teoria da Relatividade e Penicilina) - por muito que idealize alguns aspectos de outros tempos abandonaria alguns items da civilização mas nunca o duche quente, amen. Em relação à facilidade suspeita do manuseamento da sanita (e do seu Sancho Pança, o absurdo bidé) fico sempre de pé atrás. Penso que se tanto esforço foi feito para transformar o solo num meio fértil e esta fertilidade em alimentos e estes por sua vez em protagonistas de uma luta diária  para não os estragar na cozinha, até serem finalmente ingeridos, então mereceriam um Além mais digno, sob uma reencarnação, do que um bilhete só de ida para uma ETAR ao som diluvial do autoclismo. Afinal, como lembra o fabuloso pormenor de etiqueta chinesa acima, não era a valiosa fertilidade a base do sucesso de qualquer cultivador de alimentos/anfitrião?


Portanto fiz uma pequena pesquisa sobre Sanitas de Compostagem (também chamado saneamento a seco), basicamente versões modernas do buraco no chão tapado com palha num pequeno abrigo fora da casa principal, em busca de modelos que me pudessem eventualmente ser úteis para tomar uma decisão, com a intenção de saber se seria possível prescindir totalmente de equipamentos de tratamentos de resíduos (mini-etars ou fossas) caso quisesse ter uma habitação liberta destes gastos e infraestruturas (paga-se uma mensalidade pela ligação aos esgotos ou limpeza da fossa, para além de papeladas). 
Fiquei impressionado pela presença bastante normal noutros países, especialmente na Finlândia, onde são norma em equipamentos públicos. A Finlândia, como maior produtor destes equipamentos, tem mesmo uma Fundação destinada a divulgar os benefícios do Saneamento a Seco por todo o mundo (que detalhe deliciosamente escandinavo!) e fizeram um excelente manual em português que é bastante completo e esclarecedor. O que parece ser a Bíblia sobre o assunto actualmente é também o Humanure Handbook, que vejo aparecer em muitas recomendações. As soluções dividem-se em equipamentos completos pré-fabricados e em construções feitas de raiz.

Duas opções da Sun-Mar, à esquerda o modelo com depósito na cave, à direita o modelo com depósito embutido

As vantagens desta solução são: eliminação de cheiros; a possibilidade de ter dentro de casa, no local das sanitas tradicionais, o equipamento; solução pré-fabricada, de instalação simples.
As desvantagens que encontrei são as seguintes: para tirar partido da eficiência tem que se escolher um modelo eléctrico para o longo prazo; se tiverem um depósito embutido ficam numa espécie de palco, que viola as leis das acessibilidades; se tiverem um depósito externo precisam de uma escavação debaixo da casa.   Em Portugal por enquanto apenas encontrei este equipamento da Aquatron, comercializado pela Biohabitat.

Duas opções feitas de raiz. À esquerda, da Ferme de Sourrou e à direita da Milkwood Permaculture
  
O modelo de fabrico próprio tem a vantagem económica (embora esteja algo desconfiado deste aspecto), a simplicidade e eliminação da necessidade de remover semestralmente os resíduos de um depósito, que no caso das fixas, a publicidade garante como inodoro e praticamente igual ao composto normal, se correr bem.
Esta parece ser a solução predominante no nosso país e encontrei aqui quem se disponibilizasse a construir/ensinar a construir.
Apesar do nosso clima (sobretudo) brando incomoda-me a sua posição conspícua no exterior da casa, apesar dos felizes exemplos acima. No caso das compradas, estas vêm com uns pellets para misturar com os resíduos mas asseguram-me que a serradura tem o mesmo efeito- mas implica um fornecimento de serradura e tê-la na casa-de-banho. São tudo razões para pensar também em soluções de compromisso, como usar um abrigo no exterior em estações mais quentes e a solução convencional dentro de casa nas restantes, o que sempre reduziria bastante os consumos de água no Verão.

 Seja como for, se algum dia for o proprietário de uma "casinha", prometo desde já não comentar a qualidade e quantidade das lembranças dos visitantes, pelo menos publicamente.

Pessoas [I] : John Seymour (1914-2004)

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John Seymour é provavelmente a pessoa que mais merecia um filme biográfico épico, que pelo facto de ser baseado em factos reais, faz pensar porque raio inventaram o Forrest Gump ou o Benjamin Button. Mas para mim o mais importante não é que este homem tenha circum-navegado as Ilhas Britânicas sozinho à vela antes de fazer 18 anos, que tenha vivido com os Bosquímanes no Kalahari, que tenha sido membro activo da elite do exército britânico no sudoeste asiático durante a 2º Grande Guerra ou co-fundado o movimento ambientalista no Reino Unido depois disso.

O mais importante para mim é que tenha descoberto como se vive e felizmente ter posto isso em livro, sem um pingo de psicologia, discurso motivacional ou tretas, basicamente. Se não tivesse pegado no "The Self-Sufficient Life and How to Live It" a minha vida tinha sido diferente, o que é bizarro uma vez que é essencialmente um livro que apenas ensina o que pode ser feito por nós, à mão e a partir do que a natureza nos dá. E por trás disso está a descoberta do nosso valor pessoal e papel no mundo físico em que vivemos mas do qual estamos desligados.