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Apontadores [XVIII]: O mesmo tecto

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O Falanstério de Fourier


Muitos recursos são fáceis de partilhar e evitam a duplicação de despesas, desde o sinal de internet até ao meio de transporte. Em muitos países europeus em que ter casa própria ou fixa é raro, partilhar o prédio/casa/quarteirão é quase a norma durante grande parte do percurso de vida, inclusive após constituir família. 
Vou fazer uma proposta sobre este tema no âmbito do Orçamento Participativo de Guimarães.

Crónicas de uma Desempregada: Viver em comunidade
Um desabafo raro de ler em português, uma mãe solteira e desempregada percebe as vantagens de dividir despesas partilhando um espaço entre um reduzido número de famílias, que podiam inclusivamente revesar-se no acompanhamento das crianças.

Dividir casa é uma resposta à crise mas também de uma opção de vida
O título poderia estar ao contrário - como é claro no artigo o facto de existirem menos adultos fora de um núcleo convencional e dadas as características do parque habitacional do país torna vantajoso estar acompanhados de outras pessoas na mesma situação, fazendo face aos baixos rendimentos.

The Babayagas’ house, a feminist alternative to old people’s homes, opens in ParisA idade média da Europa ultrapassa os 40 anos e os solteiros já são mais numerosos que os adultos que habitam com o núcleo familiar em vários países, o que torna emergente algumas tipologias de co-habitação em reacção aos "depósitos" de idosos como esta comuna feminina.

Viver ou não viver num"kibutz"
Os kibbutz são das mais conhecidas experiências de cohabitação em grande escala, reforçadas mais pelas características agregadoras de uma religião e de um cotnexto político instável do que pelas virtudes inerentes e imediatos à partilha de recursos. Apesar disso, subsistem.

Come together: Could communal living be the solution to our housing crisis?Um artigo com uma excelente recolha de várias tipologias de co-habitação que se estão a tornar "mainstream" no R.U., desde quintas até condomínios fechados de luxo até pequenos prédios convertidos com suites e zonas comuns.

Färdknäppen – a different kind of house
Na Suécia, o modelo mais comum nos países nórdicos (a opção de mais de 10% da população da Dinamarca), com prédios para solteiros com mais de 40 anos - uma tipologia de bloco de habitação com jardim em que os espaços privados são com quartos com escritório e casa-de-banho e que partilham um ou dois pisos com cozinha, jardim e sala.

Album [XVI] : Aqui vive gente

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Waldenomania [VII]

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"Coffer", do projecto "This Must Be The Place"

Memórias e Ruralismos

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É uma fatalidade: a cada par de décadas reemerge em algum lado um movimento de "regresso à terra". Mas existe algo em comum entre as diversas reencarnações ou são reacções a pressões políticas e económicas, através de uma idealização do mundo rural?



O "back to the land" nos EUA dos anos 70 foi um impulso de isolacionismo ao que era percebido como um falhanço e diluição política dos vários movimentos de jovens do final da década de 60, reforçado por uma crise energética e política da Guerra Fria e que teve o seu expoente intelectual no Ecotopia . Quase de seguida no R.U. a estéril vida industrial dos subúrbios britânicos são contrastados com o programa "The Good Life" e os livros do John Seymour. São influências que se propagaram também pelo norte e centro da Europa sob todo o tipo de formas, garantindo que este conceito ficasse para sempre associado a esta era.
O isolacionismo e o idealismo ditaram a sua fugacidade mas continua um ensaio sobre como dadas opções de estilo de vida podem funcionar como formas de activismo e crítica política e económica.

Tudo isto contrasta com a excepção da realidade portuguesa, em que um outro tipo de concepção idealizada de um singelo e estático mundo rural era eficientemente instrumentalizada para criar um sedutor apelo ao conformismo político e intelectual. Alheia a esta construção propagandista e ao movimento global de recuperação da horticultura DIY via-se nos quintais, a manutenção (até hoje) das galinhas, batatas e couves galegas acompanhadas do inevitável limoeiro e de da prática de alguma produção de subsistência até hoje.
A partir do fátuo boom dos anos 80-90 quaisquer benefícios reais ou potenciais de estilos de vida apenas superficialmente análogos ao do ruralista sonho molhado do Estado Novo (que ainda hoje é imbecilmente invocado) são associados a um passado de repressão política (eficientemente auto-exercida, e que sobrevive até hoje) ou a um contexto de miséria que deixou mais memórias do que saudades.

É difícil identificar-me com os sonhos de um hippie/baby-boomer americano, nem com uma ilustração a lápis da Colecção Educativa dos anos 60, mas existe hoje o contexto certo para algo mais livre, prático e consequente.

Mandar pastar

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O presidente desta República que também é nossa diz que devemos seguir o exemplo do "moiral, que ao longo dos séculos conduziu os seus rebanhos para as terras altas da Serra da Estrela" e para quem "não havia fins-de-semana, não havia férias, feriados nem pontes em nenhumas circunstâncias».

É perfeitamente normal para quem tem uma afinidade muito recente a tudo o que é rural que cometa erros de julgamento, por exemplo não ter a noção de que os pastores sem feriados nem folgas são extremamente recentes e um resultado do fenómeno de abandono rural incentivado por certas legislaturas de há umas décadas atrás, que acabou com o hábito das vezeiras, que permitiam permutas na gestão dos rebanhos comunitários, um hábito que tanta fama de preguiçoso deu aos pastores em séculos passados, mas que a mim causa mais admiração do que um qualquer imaginário masoquista transumante.

Aproveitava para recomendar ao PR o documentário amador (auto-produzido e que se pode encomendar) "Névoa no Vale" ou esta excelente reportagem da TSF, sobre o último grande rebanho comunitário gerido em vezeira, na aldeia de Covas do Monte (foto minha cima).

Para além do "pobrete mas alegrete"

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 Com a explosão de hortas institucionais e voluntárias e uma maior consciência relativa a alguns valores ambientais e culturais associados ao mundo rural e actividades agrícolas é tentador constatar que se reage em parte ao boom consumista dos últimos anos e ao esvaziamento de significado de uma derrapante economia de serviços. Com esta popularidade, reportagens de "interesse humano" repescam um pastor ou um "velhinho com as suas couves" e condescendentemente apontam a sua singeleza ou "poupança por causa da crise".

Um dos resultados disto é que antes de ganhar tracção ou ser capaz de se consolidar esta postura crítica face ao sistema alimentar, à organização desequilibrada de tempo e trabalho e à relação entre a paisagem e o quotidiano, torna-se alvo de uma versão dos preconceitos do novo-riquismo dos anos do boom ou é interpretada como um pacto com uma austeridade que se reveste hoje com a mesma retórica fatalista da "pobreza digna" do Estado Novo.

Há que ultrapassar preconceitos e reconhecer este activismo económico e político específico de hoje, de base rural e/ou local e centrado na qualidade de vida, com a sua própria postura crítica e interventiva.

"Nem saúde Nem sustento"

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O título é deste amigo.



Um trabalho, mesmo um que é realizado por vocação, deveria permitir uma subsistência, ou seja, ser capaz de cobrir despesas com um lar, alimentação, energia, água, roupa e meios de deslocação. Também deveria garantir, para fazer sentido, alguma poupança, para investir num projecto pessoal ou começar uma família.
Por fim, deveria oferecer autonomia e algum tempo para a viver.

Quando o trabalho não dá a autonomia nem tempo e quando não permite pôr de lado o suficiente para investir num futuro, desaparece qualquer sentido de finalidade. Quando de forma mais grave obriga a escolher entre comer ou aquecer a casa, entre pagar renda ou uma deslocação necessária e a própria subsistência é posta em causa, sente-se com grande intensidade confusão e a decepção.

Quando apesar de se ter um trabalho se deixa de ter acesso a estas coisas surgem questões em relação ao sentido sequer faz aquilo que é fundamentalmente o estilo de vida da quase globalidade da sociedade onde crescemos e aquilo para que fomos educados toda a vida. Parecem não existir alternativas realistas ao fracasso ou à sub-existência neste esquema. Se o trabalho então nem sequer existe, o sentido de futilidade e fracasso é total.

Trabalhamos durante toda a vida para comprar um futuro, qualidade de vida e subsistência, mas acabamos  muitas vezes por perde-los por vários motivos no final ou durante este percurso.
Se tivermos ao nosso alcance os meios para trabalharmos directamente para a nossa subsistência, futuro, e tempo para o viver provavelmente estamos a abdicar da poderosa promessa de liberdade das preocupações mundanas que nos é prometida com um contrato de trabalho a tempo indeterminado, um crédito à habitação, um seguro, dinheiro na conta e um plano de reforma.

Mas alguma vez a tivemos realmente ao nosso alcance?