12 Conselhos simples para a produção agrícola de pequena escala

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Fruto de alguns apontamentos feitos em formações relacionadas com este tema. Os pontos não estão por nenhuma ordem particular, embora uns tenham bem mais importância do que outros.

1. Variedade, consociação, rotação
É sempre essencial utilizar os ciclos naturais que servem como prevenção para quebras de produção por vários motivos, partindo sempre do ciclo regenerativo e de construção do solo fértil, a base de tudo.

2. Integração animal e vegetal
Numa produção artificial e deliberada de alimentos como é a agricultura é necessário usar a complementaridade natural de espécies vegetais e animais para o seu benefício mútuo.

3. Usar os comportamentos naturais das espécies
Respeitar a especificidade das necessidades de cada espécie na sua adaptação ás circunstâncias da exploração é o meio mais económico e fácil de evitar problema.

4. Toda a estação tem os seus frutos
Trabalhando com uma produção diversificada e distribuída em diversos picos durante o ano pode permitir maior resiliência face a quebras ou variações na produção e no ritmo de trabalho.

5. O que faço só poderia ser feito aqui
Especificidade e diferenciação são o mesmo, uma produção adaptada à região permite aproveitar os seus frutos específicos como elemento diferenciador, o que pode incluir produtos DOP/IGP/ETG.

6. Na quinta não existe lixo
A eliminação ou reaproveitamento total de todos os resíduos ou excessos é sinal de que existe uma coordenação e complementaridade correcta entre as diversas produções.

7. O excesso dos vizinhos é a minha sorte
Se a exploração não é capaz de criar este ciclo fechado de reciclagem de materiais orgânicos, é possível incluir produções vizinhas de forma a complementar o ciclo, como transformar refugo frutícola em ração.

8. Clientes têm a chave da casa
Numa produção diferenciada de pequena escala é importante partilhar os processos de produção com os clientes que reconhecem esse valor acrescentado, e promover a visita física ou virtual no marketing.

9. Não estou a competir com a Argentina ou com a Alemanha
Não faz sentido competir com mercados que produzem recorrendo a subsídios maciços ou exploração laboral e ambiental desregrada, mas sim fazer o contrário, procurando um nicho específico.

10. Comer na época é comer sempre fresco
Apostar na qualidade de ingredientes que não dependem da sua facilidade de armazenamento ou ainda na precocidade relativa de algumas culturas exportáveis para outros climas.

11. Aproveitar os residentes da minha terra
O segredo da produção diferenciada pode estar em conhecimentos da gastronomia e agricultura local, e a união de produtores faz a força, podendo reduzir custos de comercialização e processamento.

12. Só se tinha tantos porcos quantos as árvores permitissem
Existem variadas densidades para variados produtos e tipos de produção, a rentabilidade não depende do tamanho mas do grau de investimento e tempo, deixando o local decidir o que produzir.

22 de Dezembro

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Archimboldo "Inverno"

Waldenomania [VII]

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"Coffer", do projecto "This Must Be The Place"

Album [XV] : Açores

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Uma ida a um alfarrabista produziu esta colectânea de postais relativos à agricultura nos Açores, que serve para matar as saudades que insistem em aparecer.





TV Rural [XVIII]: Do Minho ao Algarve

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Dois filmes do cineasta António Campos que têm como objecto duas comunidades com modos de vida e localizações praticamente opostas- uma aldeia piscatória do Algarve ("Almadraba Atuneira") e uma aldeia de pastorícia nas Montanhas do Gerês ("Vilarinho das Furnas"). 

A permanência do documentarista dentro destas comunidades durante longos períodos permitiu-lhe não só capturar as suas especificidades e diferenças como também as suas inesperadas semelhanças.
(Não encontrei um modo de ver ou comprar o "Vilarinho das Furnas", agradeço informações)



Parte 2, Parte 3




Truísmos [XV]

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"Existem dois modos de conhecer uma paisagem - uma é percorrê-la, outra é comer aquilo que oferece."

Orlando Ribeiro (ouvido aqui)

Desabafo

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A oferta formativa em Portugal para a agricultura distribui-se em 3 campos: formação profissional equivalente ao liceu; cursos ultra-específicos de fim-de-semana para o mais básico dos amadores e licenciaturas ou formações apenas abertas a técnicos.

Não existe absolutamente nenhum meio intermédio de formação prática e intensiva que permita a conversão de mão-de-obra em produtores qualificados sem requerer anos de aulas, não existe acesso a cursos profissionais sem ser para produtores estabelecidos, não existem estágios nem formação prática e profissional sem ser aquela providenciada em programas dirigidos exclusivamente a desempregados de longa duração.

Em muitos países não é preciso ter um curso técnico para trabalhar na manutenção de espaços verdes, nem 2 anos de treino em máquinas agrícolas que nem carta de condução exigem. A solução foi outra:  "on-the-job training", que permite aprender e fazer rapidamente e ao mesmo tempo e que permite que a mão-de-obra disponível possa rapidamente começar a trabalhar.

Esta formação para o certificado tem que ser complementada por cursos mais pragmáticos que permitam trazer rapidamente mais gente para a Agricultura.

Apontadores [XV] : "Guarda prado, criarás gado"

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Pastagens no vale da Senhora dos Remédios, Povoação


Pastagens ajudam clima
Projecto português reuniu conjunto de sementes de espécies anuais para pastagem com o objectivo de tornar estes espaços aptos a fundos de apoio ao sequestro de carbono no solo

Pastagens biodiversas ganham prémio BES Biodiversidade
Outro projecto nacional de elaboração de misturas para pasto, com o apoio do Banco Português de Germoplasma, desta vez para apoiar a biodiversidade associada à criação extensiva

Greener pastures: How cows could help in the fight against climate change
Os métodos tradicionais de criação extensiva em África, com integração da produção animal e vegetal podem ser adaptados para resolver as questões de produtividade e gestão sustentável da paisagem

Poluição por azoto custa 320 mil milhões de euros por ano à Europa
A maior parte da poluição dos solos e aquíferos por azoto, bem como as maiores perdas de bio-diversidade em zonas agrícolas devem-se à produção de forragens para pecuária intensiva

Pecuária Biológica – uma alternativa viável
Portugal tem muitas áreas com aptidão para a pecuária extensiva, será que a sua valorização passa sobretudo por uma certificação biológica ou pode a especificidade dos métodos tradicionais ser suficiente?

Pasture-raised or organic: Why we can’t do both
Uma produtora de avicultura mostra as contradições económicas que levam sua à escolha entre a certificação biológica e um grau de criação extensiva mais de acordo com os seus princípios e dos seus clientes

"Da Terra"

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@ NoussNouss

Album [XIV]: Unnatural

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Penelope Kenny




Memórias e Ruralismos

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É uma fatalidade: a cada par de décadas reemerge em algum lado um movimento de "regresso à terra". Mas existe algo em comum entre as diversas reencarnações ou são reacções a pressões políticas e económicas, através de uma idealização do mundo rural?



O "back to the land" nos EUA dos anos 70 foi um impulso de isolacionismo ao que era percebido como um falhanço e diluição política dos vários movimentos de jovens do final da década de 60, reforçado por uma crise energética e política da Guerra Fria e que teve o seu expoente intelectual no Ecotopia . Quase de seguida no R.U. a estéril vida industrial dos subúrbios britânicos são contrastados com o programa "The Good Life" e os livros do John Seymour. São influências que se propagaram também pelo norte e centro da Europa sob todo o tipo de formas, garantindo que este conceito ficasse para sempre associado a esta era.
O isolacionismo e o idealismo ditaram a sua fugacidade mas continua um ensaio sobre como dadas opções de estilo de vida podem funcionar como formas de activismo e crítica política e económica.

Tudo isto contrasta com a excepção da realidade portuguesa, em que um outro tipo de concepção idealizada de um singelo e estático mundo rural era eficientemente instrumentalizada para criar um sedutor apelo ao conformismo político e intelectual. Alheia a esta construção propagandista e ao movimento global de recuperação da horticultura DIY via-se nos quintais, a manutenção (até hoje) das galinhas, batatas e couves galegas acompanhadas do inevitável limoeiro e de da prática de alguma produção de subsistência até hoje.
A partir do fátuo boom dos anos 80-90 quaisquer benefícios reais ou potenciais de estilos de vida apenas superficialmente análogos ao do ruralista sonho molhado do Estado Novo (que ainda hoje é imbecilmente invocado) são associados a um passado de repressão política (eficientemente auto-exercida, e que sobrevive até hoje) ou a um contexto de miséria que deixou mais memórias do que saudades.

É difícil identificar-me com os sonhos de um hippie/baby-boomer americano, nem com uma ilustração a lápis da Colecção Educativa dos anos 60, mas existe hoje o contexto certo para algo mais livre, prático e consequente.

Waldenomania [VI]

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Depois do último post tenho a certeza de que Cavaco Silva lê este blogue (bom dia Sr. Presidente!) e decidiu levar a guerra de palavras para a diplomacia internacional:

"No início, Cavaco Silva citou Henry David Thoreau, autor e filósofo americano do século XIX que escreveu o ensaio político Desobediência Civil, uma defesa da resistência individual ao Estado. O pensamento de Thoreau, por vezes descrito como um anarquista, influenciou Ghandi e Martin Luther King. Cavaco não citou Desobediência Civil, mas outra obra de Thoreau, "Walden ou a Vida nos Bosques"."

no Público

Aníbal vamos encontrar-nos, quero perceber como é que leste (?) os mesmos livros que eu e acabaste com uma interpretação completamente oposta. E recomendo uns terapêuticos 2 anos nas margens do Alqueva.

Mandar pastar

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O presidente desta República que também é nossa diz que devemos seguir o exemplo do "moiral, que ao longo dos séculos conduziu os seus rebanhos para as terras altas da Serra da Estrela" e para quem "não havia fins-de-semana, não havia férias, feriados nem pontes em nenhumas circunstâncias».

É perfeitamente normal para quem tem uma afinidade muito recente a tudo o que é rural que cometa erros de julgamento, por exemplo não ter a noção de que os pastores sem feriados nem folgas são extremamente recentes e um resultado do fenómeno de abandono rural incentivado por certas legislaturas de há umas décadas atrás, que acabou com o hábito das vezeiras, que permitiam permutas na gestão dos rebanhos comunitários, um hábito que tanta fama de preguiçoso deu aos pastores em séculos passados, mas que a mim causa mais admiração do que um qualquer imaginário masoquista transumante.

Aproveitava para recomendar ao PR o documentário amador (auto-produzido e que se pode encomendar) "Névoa no Vale" ou esta excelente reportagem da TSF, sobre o último grande rebanho comunitário gerido em vezeira, na aldeia de Covas do Monte (foto minha cima).

TV Rural [XVII] : O Nosso Veneno Quotidiano

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Este documentário recente sobre as diversas formas de contaminação no sistema alimentar e os processos políticos de regulação do mesmo passou na RTP2 na semana passada em horário nobre.
Como gerou muita (merecida) atenção e muitos só o apanharam a meio aqui fica o filme completo.

Para além do "pobrete mas alegrete"

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 Com a explosão de hortas institucionais e voluntárias e uma maior consciência relativa a alguns valores ambientais e culturais associados ao mundo rural e actividades agrícolas é tentador constatar que se reage em parte ao boom consumista dos últimos anos e ao esvaziamento de significado de uma derrapante economia de serviços. Com esta popularidade, reportagens de "interesse humano" repescam um pastor ou um "velhinho com as suas couves" e condescendentemente apontam a sua singeleza ou "poupança por causa da crise".

Um dos resultados disto é que antes de ganhar tracção ou ser capaz de se consolidar esta postura crítica face ao sistema alimentar, à organização desequilibrada de tempo e trabalho e à relação entre a paisagem e o quotidiano, torna-se alvo de uma versão dos preconceitos do novo-riquismo dos anos do boom ou é interpretada como um pacto com uma austeridade que se reveste hoje com a mesma retórica fatalista da "pobreza digna" do Estado Novo.

Há que ultrapassar preconceitos e reconhecer este activismo económico e político específico de hoje, de base rural e/ou local e centrado na qualidade de vida, com a sua própria postura crítica e interventiva.