Uma ideia de Floresta

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@alicebernardo

No fim da Era Glaciar grande parte da Europa terá estado sob um denso manto florestal com predominância de espécies de folha caduca, do Noroeste da Península Ibérica até às estepes na actual Rússia na transformação da floresta Boreal que a antecedeu e que subsiste a outras latitudes. Da ocupação humana no Neolítico e ocupação de  clareiras artificiais,  chegou-se ao confronto com a civilização romana, que começou a desbravar esta massa inescrutável, que abrigava inúmeras criaturas e povos irredutíveis, com agricultura e estradas onde antes sobretudo se caçava e se praticavam sistema agro-florestais e onde se faziam as deslocações pela via fluvial de um modo provavelmente evocativo de uma descida do Amazonas nas zonas mais remotas.

Esta continuidade monumental terá tido um impacto tão grande que cresceu ao longo do tempo na imaginação e na mitologia europeia, permeando a história oral com a sua imagem monumental e aterradora e assim nascem as sobrenaturais Myrkviðr e Brocelândias dos mitos, na sequência da monumentalização da temida e extensa Hercynia dos romanos, um dos obstáculos maiores à expansão romana na Europa Central e última morada de legiões inteiras. Inúmeros contos e fábulas reforçam esta imagem da floresta, que entra na infância de numerosas gerações até hoje e que prolonga até à idade adulta parte do seu fascínio.

Hoje a ocupação florestal arcaica sobreviverá de forma contínua há milhares de anos somente em inúmeros pequenos retalhos, devendo-se sobretudo à protecção da caça feita por elites políticas e económicas ao longo da história, das quais alguns exemplos notáveis são a Floresta das Ardenas, a Silva Carbonaria e com a mais conhecida e extensa Białowieża, última morada do Bisonte Europeu e do Auroque e preservada mais recentemente pela Guerra Fria.

Em Portugal a presença humana cedo tratou de eliminar muita da floresta com a transumância do gado e agricultura de abatidas-queimadas. O golpe de misericórdia é dado pelos Descobrimentos, cuja avidez de construção naval, contribuiu para acabar com a presença do urso no nosso território. Hoje a floresta recupera em área ocupada, fruto de regeneração natural ou exploração comercial, com uma morfologia e constituição muito diferentes.
 Todavia, a nossa admiração subsiste no estatuto de celebridade da secular Mata de Albergaria (na foto), repositório de uma ideia de floresta selvagem, indiferente à humanidade, apesar de lhe ser intrínseca.

Apontadores [XII] : Baaaaaah

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Depois do pobreiro, uma nova série sobre as suas sócias

Associação de Raça Churra Galega Mirandesa propõe parceria com criadores de bovinos
"Os nossos criadores estão numa idade já avançada e isso leva a que desistam. É pena que a juventude não queira pegar nisto" afirma, salientando que "isto bem trabalhado em bem trabalhado e bem organizado" pode resultar. As raças autóctones dependem da sua viabilidade comercial.

A criação de gado pode ser alternativa ao desemprego 
A raça é DOP mas a carne ainda não é comercializada com este selo de garantia, no entanto trata-se de “um produto de muita qualidade que é imbatível”.O emparcelamento faz falta à criação de gado e podia contribuir para o aumento da produção. Tem também que se pensar na carne de cabrito para além das ocasiões especiais.

Goat meat, the final frontier
O que ainda é o tipo de carne mais consumido em todo o mundo é o único que vem de um animal que resiste a maus pastos e condições, come tudo o que os outros rejeitam e evita a água minimizando a contaminação. Por vários motivos é o futuro para o consumo de carne parcimonioso, baseado na qualidade e na sustentabilidade.

Emigrantes fazem do queijo um negócio no regresso à terra
Um casal de emigrantes de Bragança regressou e criou um negócio familiar que começou com um pequeno rebanho e tem hoje no queijo tradicional uma fonte de rendimento. Fazem a ressalva importante de que o seu sucesso se deve ao facto de não estarem dependentes de apoios que tardam ou créditos a condições difíceis mas das poupanças que fizeram na emigração.

Los cabreros de Málaga venderán su leche directamente al consumidor
Uma associação de produtores une-se e expande-se para fazer frente aos termos de negociação propostos pelas grandes superfícies. Escolheram assim lutar em duas frentes de um modo eficiente: oferecer preços mais baixos e mais justos para si na venda directa ao público e ganhando maior poder negocial com os grandes compradores.

Goats are Delicious and Good for the Wallet
Um artigo/slideshow sobre bastante nova literatura que procura encorajar mais pessoas a terem cabras para fins comerciais e de subsistência, chamando a atenção para os benefícios ambientais, dietéticos e económicos que a espécie pode providenciar.

Growing Goat Herds Signal Global Grassland Decline
O reverso da medalha das vantagens do uso da cabra na alimentação e economia rural, que a tornam o animal mais popular por todo o mundo, é que combinada com a sobrepopulação e falta de instrumentos de gestão do território o impacto do pasto em grande escala é catastrófico.

Aposta na qualidade
Uma micro-reportagem sobre um produtor pecuário (caprinos e ovinos) que termina com a constatação do que devia ser o axioma básico de toda a estratégia agrícola do país: "não podermos concorrer em quantidade com outros países, podemos fazê-lo em qualidade".

Truísmos [XII]

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What should young people do with their lives today? Many things, obviously. But the most daring thing is to create stable communities in which the terrible disease of loneliness can be cured.
Kurt Vonnegut via

TV Rural [XIV] : O meu Walden fica perto de um comboio

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Waldenomania [III]

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À esquerda está a nova edição portuguesa de "Walking" (a sério) e à direita está uma proposta de capa para o "Walden" do designer JezBurrows. Gostava que o HDT tivesse uma editora portuguesa ao nível do conteúdo que oferece...

Nerdgasm na Cozinha Sustentável

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Sou frequentemente o encarregado da cozinha cá por casa e posso dizer que é uma actividade que faço cheio de gosto e boa-vontade, só para não me demorar muito na descrição dos resultados.
Cozinhar frequentemente evidenciou a forma como isso afecta tanto a sustentabilidade como a economia doméstica: mais de 30% da comida é deitada fora; a maior parte da energia final de uma refeição foi usada na sua compra, refrigeração e confecção; 40% de todos os resíduos domésticos são compostáveis e, falando por nós, a alimentação feita em casa é a base da poupança possível, mesmo assim ocupando mais de 30% do nosso orçamento total. E tudo isto sem sequer ter em conta as opções que se fazem em termos de compras, que são outro universo.

Com esta maior consciência do impacto da cozinha tenho prestado mais atenção a meios de reduzir os desperdícios e o uso de recursos, ao mesmo tempo que procuro soluções menos convencionais, como nestes exemplos:

Esquerda: Field Kitchen da Kanz Outdoors Direita:  Are You Wheel? de Christoph Thetard






À esquerda está o sonho molhado dos campistas xoninhas e comodistas como eu, com tudo embutido numa mala que faz uma bem portuguesa e azeiteira paragem à beira da estrada para Arroz de Frango parecer um evento gourmet. Gosto da portabilidade para estadias de mais de um fim-de-semana.
À direita está o item número 1 para a minha lista de Natal: uma ciclo-cozinha que consiste num móvel com roda e pedais que põem a trabalhar um conjunto de electrohumanodomésticos já familiares.
A bicicleta já é a melhor invenção de sempre porque consiste numa simbiose eficiente entre homem e máquina, assim até puré faz! Simplesmente imbatível.
Aqui em baixo estão mais dois objectos de que não prescindiria se tivesse acesso a um jardim.



À esquerda está basicamente uma pia de cozinha amovível, que permite levar a água que se gastou (mas não contaminou) para o compostor, evitando perdas.
O segundo é um espectacular fogão a lenha  (montes de vídeos de americanos assustadores sobre ele), que ganhou um concurso para uma solução económica e ultra-eficiente, que permitisse rapidamente ferver a água e cozinhar com o mínimo de combustível. É agora enviado aos milhares para zonas que sofrem com desflorestação intensa devido ao uso de biomassa para quase tudo.

A par da minha solução predilecta de saneamento, parecem itens interessantes para um pequeno poiso "fora da rede", que use um mínimo de recursos sem recorrer à frugalidade de um buraco no chão e uma fogueira (desculpa HDT).

Crianças, Natureza e Fins-de-Semana

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Na sequência do apelo anterior ao pasto extensivo dos "piquenos", perguntam os pais exaustos: "Mas levá-los onde ao fim-de-semana?". Julgo que no Noroeste a dificuldade está na escolha (e de certeza que é igual no resto do país), com a quantidade de lugares bestiais que tenho vindo a acumular na procura do meu Walden.

Eis alguns programas para o Norte, todos tão interessantes quanto "low-cost", e nesta fase tão facilmente poderia sugerir estes três como mais 30:

Um Bocage em Salreu
 - Passeio na Ria de Aveiro. Pode ser feito a pé mas é absolutamente fácil para uma criança fazer um dos percursos marcados de 10-15 km (rigorosamente planos) de bicicleta. A quantidade enorme de bicharada que se pode ver nos campos é garantia de muitas paragens interessantes. Como o acesso em Salreu fica mesmo em frente à estação de comboio do mesmo nome e como se podem levar bicicletas gratuitamente dentro das composições desde S. Bento não há desculpa nenhuma para não experimentar.
Existem espaços para fazer um piquenique.

Foz do Minho, aquela esquina arborizada é o Camarido, a "ponta" noroeste de Portugal



- Praias, praias e mais praias. Diz-se que o Nortenho se distingue bem nas praias do Sul porque é o único que leva sempre pára-vento mas o Bóreas não traz só desvantagens- torna muitas vezes mais ameno um passeio de bicicleta, que pode começar nas praias de Gaia ou de Caminha (servidas pelo comboio) ou servir de pretexto para ir a Vila do Conde (com metro) ou ao Parque Natural Litoral Norte em Esposende. As voltas normalmente terminam no mar ou na areia de papo para o ar e livro em cima da cara .

Vale do Rio Homem e Mata da Albergaria, vistos da Geira Romana


- Gerês. Se calhar não precisava de dizer mais nada mas há um bom motivo para justificar a fama, que é fácil de constatar ao deixar o carro (ou sair do autocarro da Empresa Hoteleira do Gerês, a partir de Braga) em Campo do Gerês(ou na Vila) e ir até à Portela do Homem através da Mata da Albergaria, algo que se faz de bicicleta ou a pé com paragem nas margens do Rio Homem (provavelmente o nome mais literário de sempre).

Passeios anti-crise e que deveriam fazer parte da rotina de muito mais gente, sem desculpas nesta altura.

A Horta no início do Verão

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Salgar a Terra

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Quando Roma destruiu Cartago na 3º Guerra Púnica cumpriu o costume de espalhar sal sobre os campos para os tornar incultos para sempre, condenando simbolicamente a cidade. O único espólio significativo que não foi destruído foi um tratado de Agricultura cartaginense sobre como manter vinhas e searas em locais com pouca chuva, obra que influenciou a ocupação agrícola romana no Mediterrâneo.
Até ao século XVIII puniam-se os traidores em Portugal salgando a sua "terra infame".
"Temperar" os terrenos agrícolas para os destruir é hoje bem menos eficiente do loteá-los...

Hortas Comunitárias em Portugal [XI] : Horta Solidária da Trofa

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Génese:
Resultado de uma colaboração entre a Santa da Misericórdia da Trofa, Câmara Municipal da Trofa, Junta de Freguesia de S. Martinho do Bougado, Adapta e Biotrofa, em 2010, em terrenos anexos ao Lar que está ao cuidado da Misericórdia.

Área / Nº de participantes:
Desconhecido

Objectivos:
 
Complementar o orçamento de famílias desfavorecidas com produção própria de hortícolas. 

Ligações:
Notícia 1, Notícia 2

Notas:

Trata-se de um projecto que tem o objectivo quase exclusivo de aproveitar algum espaço anexo a uma instituição de solidariedade para apoio alimentar de famílias carenciadas com a situação mais grave, com cedência de alguns materiais, para além do espaço. Um dos objectivos parte do pressuposto de que é possível algum tipo de auto-suficiência para um grupo extenso, uma expectativa dificilmente realizável.

Hortas Comunitárias em Portugal [X] : Hortas "Urbanas" de Almeirim

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Génese:
Conversão de um terreno da Câmara Municipal de Almeirim ocupado por eucaliptal em terreno agrícola.

Área / Nº de participantes:
 2 Hectares divididos em talhões de 25m2.

Objectivos:
Formação e prática de horticultura biológica para consumo de subsistência e lazer.

Ligações:
 Notícia 1, Anúncio Oficial

Notas:
Este projecto resulta de mais uma colaboração da Agrobio e um Município e inclui um contrato não só de implementação da Horta mas da formação dos utentes em MPB, de forma a que a produção respeite as condicionantes da produção certificada. Este é um aspecto importante que poderia transformar o projecto num espaço de formação no que é um concelho com grande tradição de produção agrícola.  É por este motivo que não se entendem os objectivos do projecto quando os talhões têm uns exíguos 25m2.

Waldenomania [II]

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Guia de Maneio de Infantes

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Cada vez mais afastados da dieta mediterrânea e da verdadeira instituição nacional que é a sopinha a cada refeição, os nossos rebentos rebentam pelas costuras e competem agora com os campeões transatlânticos em volume.

Alguém disse um dia que "as crianças são animais de criação ao ar livre", relevando a especial aptidão das criaturas para a ocupação extensiva de parques, quintais e jardins e pelo facto de se manterem facilmente com modestas porções daquilo que até eles próprios podem plantar.

Para além de questionarmos o modo como produzimos os nossos alimentos deveríamos, com alguma coerência, perguntarmo-nos porque é que aplicamos a crianças a mesma lógica da estabulação permanente com ração de engorda que aplicamos (mal) a animais.

Taxonomia dos Agricultores

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O Contrary Farmer é um daqueles raros blogues que pura e simplesmente só tem posts interessantes, desta vez dedicou-se a classificar os diferentes tipos de agricultores que conhece, chamando a atenção de que são todos espécies em vias de extinção, por destruição do seu habitat natural. A saber:

O Agricultor Papa-Terra é extremamente territorial e procura ganhar para si a máxima quantidade de terra de forma a ganhar a maior quantidade de incentivos sem trabalhar o solo.

O Grande Proprietário é todo aquele que tem mais terra do que quem usa a expressão.

O Agricultor de Bancada é aquele que por conseguir produzir um cabaz de courgettes acha que pode dizer a outros como devem produzir 500 hectares de soja. *

O Agricultor em Part-Time é aquele que ainda pensa que vai ganhar dinheiro na agricultura e tem outro emprego para manter o "vício".

O Agricultor Desgrenhado ficou inesperadamente rico por causa da inflação dos solos agrícolas e potencial para subsídios, ignorando as críticas ao modo de produção que lhe permitem aceder aos apoios

O Agricultor Faz-de-Conta aparecem somente em simpósios de agricultura em universidades e em reportagens e documentários, adquirindo a plumagem agrícola somente no Verão.

O Agricultor Fiscal investiu em terrenos agrícolas por motivos fiscais e especulativos e refere-se ao seu habitat como investimentos em commodities.

* (ai, até doeu)

Este não tem E.Coli

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