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Fertilidade gratuita

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Lucrando desavergonhadamente com a frustração e insónia da comunidade académica, recolho algumas vezes por semana as borras de café do bar da UM, que anualmente podem poupar-me mais de 1,5 toneladas de adubo orgânico que de outro modo iriam engordar um aterro.

Para além de serem uma espécie de mistura de anfetaminas, viagra e chocolate para minhocas são um material azotado com PH neutro, já esterilizado (as substâncias chatas e acidificantes ficam com os 5% que vão para fazer os cafés), já processado, que melhora a retenção de água e está pronto a usar na pilha de composto. Tenho conseguido solo ao fim de um mês na pilha semi-enterrada, mesmo com temperaturas de Inverno.

Para usar as que têm em casa deixo alguns conselhos: inibe a germinação por isso não usem directamente em plantas jovens mas ajuda a afastar ervas indesejadas em torno das mais estabelecidas; misturem com partes iguais de materiais ricos em carbono (papel reciclado, folhas secas, palha, etc); não permitam que ultrapassem uns 25-30% do total do composto; permitam o acesso a minhocas.

Hortas Comunitárias em Portugal [VI] : Hortas da Resinorte

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Génese:
Riba d'Ave, Vila Nova de Famalicão, nas instalações da empresa Resinorte

Área / Nº de participantes:
Total de 700 m2, forma de divisão desconhecida

Objectivos:

Espaço dirigido para educação a complementar as visitas guiadas ao espaço ilustrando os benefícios da compostagem

Sítio da Internet:

Notícia Oficial, Site da Resinorte

Notas: 

Trata-se da mais recente (e mais pequena) implementação do modelo educativo da Lipor em torno da compostagem, mas aparentemente mais focado na comunidade escolar que visita a estação de tratamento. Poderá ser um modelo de integração de educação ambiental mais modesto para centrais de valorização orgânica de pequena dimensão ou que estejam longe de centros urbanos.

Hecatombe de Fertilidade

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Waterloo: macabra e insuspeita fonte de adubo, aqui mostrado em manobras de pré-compostagem





























 Um dos aspectos que são mais misteriosos e interessantes para mim em relação à Agricultura são as formas de renovação da fertilidade com o mínimo de inputs. Sabendo que o objectivo é extrairmos os nutrientes de que precisamos sob a forma de alimentos de origem animal e vegetal que conseguimos comer, como podemos compensar aquilo que se "perde" para nos manter vivos dependendo apenas de processos naturais de renovação de fertilidade?

Mesmo devolvendo aquilo que pudermos dos nossos desperdícios temos sempre que fazer alguma operação de concentração. Primeiro usou-se o sistema das abatidas-queimadas (ainda existe em muitos países), com pousios que chegavam a décadas, depois de muitas outras soluções (que merecem um texto dedicado) evoluiu-se para a situação actual, em que se depende da indústria extractiva para nos atolarmos em nutrientes de forma ineficiente. Algures pelo meio ficou a dependência dos estrumes verdes e castanhos em que por exemplo se pastava no monte para recolher o estrume no estábulo à tarde e noite ou em que se recolhiam folhas caídas nos bosques das imediações, tudo para "importar" esta produção vegetal não comestível para áreas muito mais concentradas nos campos de cultivo da forma menos laboriosa possível mas dependente da atenção humana directa.
Com a procura de meios fáceis de obter fertilidade conta-se que o campo de batalha de Waterloo foi durante anos escavado por agricultores da zona em busca de ossos para moer e aplicar nas culturas!

Queria chegar ao seguinte: é monumental a quantidade de fertilidade que se inutiliza para sempre em aterros contaminados todos os dias, em todo o lado (mais de 40% dos resíduos são compostáveis!). Este potencial orgânico foi importado de minas e fábricas para os alimentos cujos resíduos depois deitamos fora mas que contêm ainda quantidades apreciáveis de matéria-prima valiosa (composto vende-se a 1€/l).
Basicamente, tenho que arranjar um vermicompostor adaptável a um apartamento para deixar a compra bienal de estrume para o talhão.

Elogio da "Casinha"

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"So precious was manure that Chinese farmers stored it in burglarproof containers. The polite thing to do after enjoying a meal at a friend's house was to go to the bathroom before you departed."


No qual o autor prossegue com assuntos escatológicos.
Uma dos motivos pelo que estou grato por viver no século XXI é a canalização moderna (lamento, Teoria da Relatividade e Penicilina) - por muito que idealize alguns aspectos de outros tempos abandonaria alguns items da civilização mas nunca o duche quente, amen. Em relação à facilidade suspeita do manuseamento da sanita (e do seu Sancho Pança, o absurdo bidé) fico sempre de pé atrás. Penso que se tanto esforço foi feito para transformar o solo num meio fértil e esta fertilidade em alimentos e estes por sua vez em protagonistas de uma luta diária  para não os estragar na cozinha, até serem finalmente ingeridos, então mereceriam um Além mais digno, sob uma reencarnação, do que um bilhete só de ida para uma ETAR ao som diluvial do autoclismo. Afinal, como lembra o fabuloso pormenor de etiqueta chinesa acima, não era a valiosa fertilidade a base do sucesso de qualquer cultivador de alimentos/anfitrião?


Portanto fiz uma pequena pesquisa sobre Sanitas de Compostagem (também chamado saneamento a seco), basicamente versões modernas do buraco no chão tapado com palha num pequeno abrigo fora da casa principal, em busca de modelos que me pudessem eventualmente ser úteis para tomar uma decisão, com a intenção de saber se seria possível prescindir totalmente de equipamentos de tratamentos de resíduos (mini-etars ou fossas) caso quisesse ter uma habitação liberta destes gastos e infraestruturas (paga-se uma mensalidade pela ligação aos esgotos ou limpeza da fossa, para além de papeladas). 
Fiquei impressionado pela presença bastante normal noutros países, especialmente na Finlândia, onde são norma em equipamentos públicos. A Finlândia, como maior produtor destes equipamentos, tem mesmo uma Fundação destinada a divulgar os benefícios do Saneamento a Seco por todo o mundo (que detalhe deliciosamente escandinavo!) e fizeram um excelente manual em português que é bastante completo e esclarecedor. O que parece ser a Bíblia sobre o assunto actualmente é também o Humanure Handbook, que vejo aparecer em muitas recomendações. As soluções dividem-se em equipamentos completos pré-fabricados e em construções feitas de raiz.

Duas opções da Sun-Mar, à esquerda o modelo com depósito na cave, à direita o modelo com depósito embutido

As vantagens desta solução são: eliminação de cheiros; a possibilidade de ter dentro de casa, no local das sanitas tradicionais, o equipamento; solução pré-fabricada, de instalação simples.
As desvantagens que encontrei são as seguintes: para tirar partido da eficiência tem que se escolher um modelo eléctrico para o longo prazo; se tiverem um depósito embutido ficam numa espécie de palco, que viola as leis das acessibilidades; se tiverem um depósito externo precisam de uma escavação debaixo da casa.   Em Portugal por enquanto apenas encontrei este equipamento da Aquatron, comercializado pela Biohabitat.

Duas opções feitas de raiz. À esquerda, da Ferme de Sourrou e à direita da Milkwood Permaculture
  
O modelo de fabrico próprio tem a vantagem económica (embora esteja algo desconfiado deste aspecto), a simplicidade e eliminação da necessidade de remover semestralmente os resíduos de um depósito, que no caso das fixas, a publicidade garante como inodoro e praticamente igual ao composto normal, se correr bem.
Esta parece ser a solução predominante no nosso país e encontrei aqui quem se disponibilizasse a construir/ensinar a construir.
Apesar do nosso clima (sobretudo) brando incomoda-me a sua posição conspícua no exterior da casa, apesar dos felizes exemplos acima. No caso das compradas, estas vêm com uns pellets para misturar com os resíduos mas asseguram-me que a serradura tem o mesmo efeito- mas implica um fornecimento de serradura e tê-la na casa-de-banho. São tudo razões para pensar também em soluções de compromisso, como usar um abrigo no exterior em estações mais quentes e a solução convencional dentro de casa nas restantes, o que sempre reduziria bastante os consumos de água no Verão.

 Seja como for, se algum dia for o proprietário de uma "casinha", prometo desde já não comentar a qualidade e quantidade das lembranças dos visitantes, pelo menos publicamente.

Apontadores [II] : Estrume!

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Soil Association Report: "Between a Rock and a Hard Place: Peak Phosphorus and the threat to our food security"

A associação britânica que promove a agricultura biológica elaborou um relatório que dá conta da dependência da agricultura convencional dos nutrientes da indústria extractiva, mais propriamente o fósforo (China 50%, EUA, 30% e Marrocos 25%, controlam quase exclusivamente o recurso, deixando a Europa numa posição mais frágil). Os autores têm um interesse óbvio em demonstrar a vantagem estratégica da Agricultura Biológica, fortemente dependente do estrume como fonte deste nutriente mas os dados de escassez do fósforo (o chamado "Pico do Fósforo") que apresentam batem certo com os inventários oficiais da indústria. A par do petróleo, mais um pilar essencial da agricultura industrial que fica mais caro nos próximos tempos.

The Atlantic: "Why are farmers flocking to manure?" 

O Gene Logsdon, autor do que é provavelmente o melhor blogue de agricultura do mundo e autor do, entre muitos outros,  eloquentemente entitulado "Holy Shit: Managing Manure To Save Mankind", escreveu um artigo que começa com um premissa inicialmente irónica: e se no futuro próximo o estrume fosse uma das commodities mais valiosas da bolsa de Chicago? Ultrapassando os preconceitos académicos e culturais face ao estrume e a sua produtividade pode ser que agora se possa retomar o caminho racional em vez de continuarmos com o ciclo linear de resíduos e ETARs agrícolas (vulgarmente conhecidas como "rios").


Energy Bulletin: "Tracking U.S. farmers’ supply of nitrogen fertilizer"

O Energy Bulletin, que se dedica ao estudo do uso de recursos na economia global, foca aqui a dependência dos EUA da sintetização de Amónia a partir de gás natural, do qual se obtém outro dos três macro-nutrientes, o Nitrogénio. Neste caso o problema  é o inverso do fósforo- os preços em queda do gás natural e as importações baratas têm eliminado a margem de lucro desta indústria, a par do facto de ser a forma de poluição industrial mais multada, por contaminação de água e solos por sobre-fertilização, a principal causa das eutróficas Zonas Mortas.