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Apontadores [XIX] : Consumo Cooperativo

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Todos os objectos têm uma vida secreta por causa da distância que existe hoje entre a sua produção e o seu uso ou consumo final, mas se no caso da produção industrial convencional os bastidores impressionam pela sua escala e complexidade logística no caso da produção manual somos surpreendidos pelo esforço, tempo e grau de conhecimento acumulado que lhe são intrínsecos.
É por isso que não conhecer o processo e os seus protagonistas no caso do trabalho manual é não conhecer totalmente o objecto e fatalmente não lhe atribuir o valor que tem, que merece reconhecimento.

No meio de tantas iniciativas, seminários, projectos, acordos de cooperação e afins para dinamizar as "indústrias criativas" e o "design nacional" surge sempre a frustração por não se verem os resultados concretos de tudo isto e a materialização destes esforços mais ou menos consequentes.

Felizmente existem as excepções que mostram os ciclos que ligam a produção das matérias-primas da paisagem até à produção manual de objectos, objectivo do projecto Saber Fazer, e que levam esse trabalho de registo a um trabalho que tem repercussões, como por exemplo tornar estas técnicas e materiais relevantes na produção de objectos de hoje em vez da habitual perspectiva estática e museificante que impede a renovação e perpetuação deste conhecimento.
Nestas imagens e no restante registo associado fica visível o trabalho de tantas mãos e todo o enorme potencial que contêm.

Saber Fazer
NoussNouss






12 Conselhos simples para a produção agrícola de pequena escala

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Fruto de alguns apontamentos feitos em formações relacionadas com este tema. Os pontos não estão por nenhuma ordem particular, embora uns tenham bem mais importância do que outros.

1. Variedade, consociação, rotação
É sempre essencial utilizar os ciclos naturais que servem como prevenção para quebras de produção por vários motivos, partindo sempre do ciclo regenerativo e de construção do solo fértil, a base de tudo.

2. Integração animal e vegetal
Numa produção artificial e deliberada de alimentos como é a agricultura é necessário usar a complementaridade natural de espécies vegetais e animais para o seu benefício mútuo.

3. Usar os comportamentos naturais das espécies
Respeitar a especificidade das necessidades de cada espécie na sua adaptação ás circunstâncias da exploração é o meio mais económico e fácil de evitar problema.

4. Toda a estação tem os seus frutos
Trabalhando com uma produção diversificada e distribuída em diversos picos durante o ano pode permitir maior resiliência face a quebras ou variações na produção e no ritmo de trabalho.

5. O que faço só poderia ser feito aqui
Especificidade e diferenciação são o mesmo, uma produção adaptada à região permite aproveitar os seus frutos específicos como elemento diferenciador, o que pode incluir produtos DOP/IGP/ETG.

6. Na quinta não existe lixo
A eliminação ou reaproveitamento total de todos os resíduos ou excessos é sinal de que existe uma coordenação e complementaridade correcta entre as diversas produções.

7. O excesso dos vizinhos é a minha sorte
Se a exploração não é capaz de criar este ciclo fechado de reciclagem de materiais orgânicos, é possível incluir produções vizinhas de forma a complementar o ciclo, como transformar refugo frutícola em ração.

8. Clientes têm a chave da casa
Numa produção diferenciada de pequena escala é importante partilhar os processos de produção com os clientes que reconhecem esse valor acrescentado, e promover a visita física ou virtual no marketing.

9. Não estou a competir com a Argentina ou com a Alemanha
Não faz sentido competir com mercados que produzem recorrendo a subsídios maciços ou exploração laboral e ambiental desregrada, mas sim fazer o contrário, procurando um nicho específico.

10. Comer na época é comer sempre fresco
Apostar na qualidade de ingredientes que não dependem da sua facilidade de armazenamento ou ainda na precocidade relativa de algumas culturas exportáveis para outros climas.

11. Aproveitar os residentes da minha terra
O segredo da produção diferenciada pode estar em conhecimentos da gastronomia e agricultura local, e a união de produtores faz a força, podendo reduzir custos de comercialização e processamento.

12. Só se tinha tantos porcos quantos as árvores permitissem
Existem variadas densidades para variados produtos e tipos de produção, a rentabilidade não depende do tamanho mas do grau de investimento e tempo, deixando o local decidir o que produzir.

Queda e Ascensão do Mercado Municipal [II]

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Mercat de San Josep @noeluap
Se existe então a intenção de apoiar um comércio de proximidade constituído por pequenas ou micro empresas que mudanças podemos procurar que signifiquem maior conveniência e qualidade sem sacrificar os seus aspectos positivos?
Este é o cerne da iniciativa de modernização levada a cabo pelo município de Barcelona em todos os seus mercados, um modelo que é hoje exportado por todo o mundo e que procura combinar os aspectos positivos das grandes superfícies e do comércio tradicional e pode ser sumarizado em alguns pontos:



- Os mercados são espaços assentes sobre zonas pedonais da cidade, que foram reformuladas ao mesmo tempo que o próprio mercado, privilegiando este tipo de comércio de proximidade que não depende de grandes superfícies de estacionamento ou viagens de automóvel
 
- Existe uma marca Mercats de Barcelona comum a todos os mercados mas com ligeiras variações para cada espaço. Os comerciantes aplicam esta marca na sinalética, embalagens e algum vestuário, unificando a rede e reforçando a noção de que a qualidade está distribuída por todos

- Oferecem-se todos os serviços e amenidades de qualquer hipermercado, como wi-fi nos espaços (sempre com zonas de estar dentro do próprio mercado), loja online, entregas ao domicílio mas também educação alimentar, aulas de culinária e formação com assuntos relacionados com saúde e alimentação

- Os clientes são encorajados a provar os produtos, a conhecerem melhor o seu uso e a estabelecerem uma relação de fidelidade com o seu fornecedor, que tende a ter um conhecimento mais aprofundado dos seus produtos específicos

- A entidade gestora coordena não só a manutenção dos espaços e a identidade mas dinamiza-o constantemente, com feiras temáticas, actividades gastronómicas e publicidade global  (ver a activa página FB do grupo). Coordena também a variedade de oferta, para que tenham uma conveniência ao nível de uma grande superfície.

-São retidos muitos aspectos socialmente significativos que são valorizados pelos clientes: os comerciantes são donos do seu próprio espaço por longos períodos; no seu conjunto tratam-se de pequenos distribuidores o que por sua vez os leva a negociar com pequenos produtores, esforçando-se para se diferenciarem dos restantes comerciantes; existe uma relação entre o produto e o vendedor para os clientes, etc.



Que desafios se colocam perante a aplicação deste modelo em Portugal, por exemplo no Porto, em que existem vários Mercados de grande valor arquitectónico e bem localizados embora em variados graus de declínio (Bom Sucesso, Bolhão, Foz, Massarelos)?  São vários e difíceis de resolver: cidades com centros vazios de habitantes, uma baixa área pedonal envolvente, hábitos de consumo acrítico, desvalorização da gastronomia e dependência do automóvel.

Uma vez que todos estes aspectos, embora ainda ubíquos, parecem felizmente dar indícios de algum enfraquecimento será que estamos prontos a dar em breve uma nova oportunidade aos mercados municipais?

Queda e Ascensão do Mercado Municipal [I]

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fonte
As chamadas grandes superfícies comerciais oferecem fundamentalmente 3 benefícios aos seus clientes: fácil acesso automóvel; concentração e diversidade de oferta e economias de escala, que lhes permitem fazer alguns descontos importantes. Esta conveniência ditou o seu sucesso, mas também implica fragilidades que facilmente a põem em causa. 

Como é  explicado aqui, a maioria dos hipermercados fica fora de centros urbanos onde não há muitas alternativas ao automóvel, cuja despesa e tempo de viagem envolvidos podem ficar mal na comparação com compras mais frequentes mas integradas no percurso quotidiano habitual, possivelmente nem usando o carro.
Ao mesmo tempo, a diversidade de produtos tem vindo a diminuir tanto nos frescos (onde o que existe de diferente são sobretudo produtos exóticos) como nos processados, com a predominância das marcas brancas que são também praticamente a única estratégia de poupança ainda disponível.

Um sinal destas alterações é o facto de que cada vez mais cadeias de distribuição procuram formatos próximos da "loja de bairro", implantando-se em zonas urbanas com tráfego pedonal em espaços de pequena dimensão. Porém o carácter dos espaços não permite atingir algumas das potencialidades dos mercados institucionais, que é a abertura aos produtores e outros comerciantes em nome próprio e obter um espaço cívico onde concorrem outras funções e formas de interacção para além do abastecimento em alimentos.

Por outro lado os mercados municipais que restam definham pelas mais variadas razões, desde falta de investimento na manutenção do existente ou criação de infraestrutura nova inadequada ou localizada fora de centralidades que permitam integrar os tais percursos quotidianos até ao declínio populacional de muitas áreas urbanas e a perda de mercado para o hábito de combinar shopping & hipermercado na mesma visita.

Existem alguns sinais positivos mas tímidos: nascem alguns movimentos de defesa destes espaços (embora demasiado focado no fundamento arquitectónico); existe alguma mobilização em torno do "compre ao produtor" e "comprar nacional" e vão aparecendo alguns mercados biológicos, que paradoxalmente ilustram bem um preconceito - são inexplicavelmente segregados dos mercados municipais numa localização mais adequada a um status elevado do MPB, na percepção dos promotores.

Não é possível manter o modelo do mercado municipal do passado nem é possível ignorar as potencialidades de um modelo reformulado de comércio tradicional num mundo que é cada vez mais crítico em relação ao que compra e ao modo como o compra.
Vou propôr alguns meios de reformulação dos mercados municipais na segunda parte.

Apontadores [XIII] : Produzir, vender e comprar com ética

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Produtores agrícolas acusam grande distribuição
Distribuidores de fruta ficam com uma margem de lucro de 50% a 200. Há que saber vender e escoar os produtos de outra forma, e ganhar mais poder negocial. A grande distribuição oferece concentração de escolha e conveniência de acesso. Produtores unidos podem oferecer o mesmo, nos seus termos.

Continente e Pingo Doce entre os dez maiores importadores
Números para as compras nacionais são exagerados, uma vez que a experiência diz que a fruta e legumes portugueses estão em média abaixo dos 50%, a origem das marcas brancas não aparece na embalagem e contabilizam os processados em Portugal como "produção 100% nacional".

Empresário rompeu com os hipermercados e não se está a dar mal
Um pequeno produtor abandonou distribuidores e armazenistas e vende fruta pela internet, o sucesso da comercialização directa em pequena escala tem o potencial de mudar todas as regras do mercado actual.

Produtores de Mora vendem mais barato em mercado livre de intermediários
Os mercados municipais são a base fundamental para apoio aos micro-produtores e o meio de acesso ao comércio local e de proximidade. Mas são um modelo que tem que ser capaz de se reformular.

Preço do melão triplica entre o produtor e os hipermercados 
As importações de países que fornecem mais barato (por vários motivos) é usada como arma para atirar compra aos produtores nacionais para valores próximos do custo de produção mas produtores precisam de se unir para ganhar peso negocial e autonomia.

Como a grande distribuição pressiona os seus fornecedores
Um rol das principais estratégias de que grandes distribuidores utilizam na negociação de preços e contratos com os produtores.

Léxico [I] : CSA

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Uma CSA (Community Supported Agriculture) é uma forma de comercialização de produtos agrícolas iniciada na Suíça e hoje com uma sólida presença e popularidade nos EUA. Consiste na compra, por parte de consumidores locais, de produtos alimentares e bens transformados de uma exploração ou cooperativa agrícola em troco de um valor fixo por um período de tempo estabelecido. Nalguns casos a participação do consumidor vai para além do contrato anual ou da duração da época de produção e são vendidas participações das próprias quintas, aproximando-se mais de um projecto cooperativo com membros financiadores e membros produtores.Os membros financiadores retêm o acesso a algumas instalações das quintas.

Do ponto de vista do produtor os benefícios são o tempo e esforço libertado na comercialização e logística da sua produção e/ou a negociação com distribuidores; a possibilidade de acomodar pequenas produções ou policulturas e a previsibilidade da receita; e também a ajuda ao financiamento do início de actividade sem recorrer à banca e/ou concorrer a apoios. É um modelo que serve eficazmente pequenas explorações e por esse motivo adapta-se mais facilmente a nichos como a agricultura tradicional, biológica, biodinâmica ou outras.

Os clientes podem ganhar maior conveniência, com as entregas caseiras; os preços podem ser mais baixos e/ou mais justos para o produtor, com a eliminação do distribuidor; e os alimentos tendem a ser mais frescos, não tendo passado pela sequência de processamento, refrigeração e embalamento o que também permite reduzir os impactos ambientais relacionados.

Em Portugal existem alguns projectos de aproximação produtores tradicionais e de pequena escala ao consumidor, em tudo semelhantes ao serviço que as bancas dos mercados municipais -em crise- ainda proporcionam, com menores margens de lucro que os grandes distribuidores de cadeias de supermercados. Existe, por exemplo, a empresa Raízes, no Porto, que combina produção própria e distribuição de pequenos produtores.