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Léxico [III] : Prosperidade sem Crescimento
Este é o título de um livro escrito pelo economista Tim Jackson, com o clarificador sub-título de "Economia para um Planeta Finito" (crítica do Guardian aqui). A ideia de que o desenvolvimento económico é uma ferramenta que serve a qualidade de vida das sociedades humanas e não uma espécie de organismo autónomo com valor em si mesmo (vulgo "os mercados", o novo "homem do saco") seria considerada uma blasfémia, não fosse o oportuno timing de publicação após a crise de 2008, quando esta ideia de desenvolvimento começou a trair as suas bases de forma mais evidente.
Ficam evidentes três limites para este tipo de sistema: o limite a partir do qual a sociedade tem possibilidades de trabalhar enquanto perde qualidade de vida; o limite de diminuição de salários e emprego, extinguindo-se o consumo que suporta o crescimento; e por fim os limites físicos dos recursos finitos em que se baseia a produção e consumo de bens, do crude à produção agrícola.
Como actualmente o novo mantra económico da "austeridade" domina a paisagem política, como o desemprego e redução do poder de compra são evidentes e como os bens energéticos e alimentares sobem consistentemente é oportuno pensar para além do PIB e começar a reflectir sobre os meios de assegurar a prosperidade e qualidade de vida sem recurso ao "crescimento pelo crescimento".
Este livro deixa manifesta a necessidade de rejeitar praticamente toda a política económica vigente, abrindo perspectivas para algo fundamentalmente diferente ( provisoriamente chamado "steady-state economy").
Falta saber a que sociedade corresponde esta política económica baseada na qualidade de vida e se gerações inteiras cuja valorização advém do poder de compra estarão dispostas e integrá-la com naturalidade.
21.2.11
St. Matthew Island

Esta história em banda desenhada de Stuart McMillen é das melhores parábolas sobre sustentabilidade que já li, ultrapassando em eloquência muitos tratados de economia sobre o tema. Leitura obrigatória.
19.2.11
TV Rural [VI] : Ensuring the future of food
Ainda a propósito deste tema o Ministério da Agricultura japonês fez uma campanha pela soberania alimentar do país, baseada no pressuposto de pedir ao seus cidadãos que optem mais por uma dieta tradicional com produtos nacionais, dada a extrema dependência do Japão em várias vertentes.
Tanto a mensagem como o design estão muito bem conseguidos (faz lembrar o vídeo do Remind Me).
14.2.11
Beans are Bullets, Potatoes are Powder
O slogan do título foi usado numa das agressivas campanhas em prol da auto-produção por parte dos países anglófonos durante a 2º Guerra Mundial, que se estendeu por outros meios, como os cartazes que agora aparecem cada vez mais sempre que se fala de locavorismo ou de alimentação sustentável (e que tiveram aqui uma actualização).
Este é um dos melhores e mais convincentes exemplos de design de intervenção, sem grandes devaneios pictóricos e bastante denso em informação (adoro o "Please Post Conspicuously") e as variedades escolhidas obedecem criteriosamente ao máximo de valor alimentício na menor quantidade de espaço de cultivo.
Um embargo a importações alimentares causado por uma guerra é uma situação agora bastante invulgar por estas bandas e algo que associamos a tempos mais bárbaros em que era verosímil um conflito em grande escala à nossa porta, mas foi o único verdadeiro desafio que alguma vez se colocou ao modelo de agricultura industrial da "revolução verde".
No fundo foi um duplo desafio: as economias de escala que apoiam este tipo de agricultura revelaram-se dependentes de um mercado global, baseado na livre troca e transporte de bens, e a intrínseca complexidade laboral e enorme dimensão estrutural deste modelo mostraram-se incapazes de se adaptar a uma realidade de escassez de recursos (desviados para a máquina de guerra) e de descentralização da produção.
Basicamente, como em vários aspectos de outras indústrias, foi preciso fazer muito com pouco e em pouco tempo ideias totalmente estranhas à época (e que ainda hoje fazem franzir muitos sobrolhos), foram recuperadas ou inventadas de raiz.
Nasceu assim a primeira campanha de partilha de boleias, a primeira campanha de recuperar vestuário, a primeira campanha de material de escritório (!) e, obviamente, a primeira campanha de produção própria de alimentos nos quintais e jardins (acompanhados da conservação).
O título dramatiza o que era o verdadeiro "segundo teatro de guerra" do conflito, travado nas cozinhas e quintais, exprimindo a constante pressão logística para abastecimento da população e exército.
Quando falhou o modelo vigente de produção agrícola, cujas vulnerabilidades mencionadas acima aumentaram exponencialmente nestes 60 anos que passaram, os feijões foram balas e as batatas, pólvora.
10.2.11
Apontadores [II] : Estrume!
Soil Association Report: "Between a Rock and a Hard Place: Peak Phosphorus and the threat to our food security"
A associação britânica que promove a agricultura biológica elaborou um relatório que dá conta da dependência da agricultura convencional dos nutrientes da indústria extractiva, mais propriamente o fósforo (China 50%, EUA, 30% e Marrocos 25%, controlam quase exclusivamente o recurso, deixando a Europa numa posição mais frágil). Os autores têm um interesse óbvio em demonstrar a vantagem estratégica da Agricultura Biológica, fortemente dependente do estrume como fonte deste nutriente mas os dados de escassez do fósforo (o chamado "Pico do Fósforo") que apresentam batem certo com os inventários oficiais da indústria. A par do petróleo, mais um pilar essencial da agricultura industrial que fica mais caro nos próximos tempos.
The Atlantic: "Why are farmers flocking to manure?"
O Gene Logsdon, autor do que é provavelmente o melhor blogue de agricultura do mundo e autor do, entre muitos outros, eloquentemente entitulado "Holy Shit: Managing Manure To Save Mankind", escreveu um artigo que começa com um premissa inicialmente irónica: e se no futuro próximo o estrume fosse uma das commodities mais valiosas da bolsa de Chicago? Ultrapassando os preconceitos académicos e culturais face ao estrume e a sua produtividade pode ser que agora se possa retomar o caminho racional em vez de continuarmos com o ciclo linear de resíduos e ETARs agrícolas (vulgarmente conhecidas como "rios").
Energy Bulletin: "Tracking U.S. farmers’ supply of nitrogen fertilizer"
O Energy Bulletin, que se dedica ao estudo do uso de recursos na economia global, foca aqui a dependência dos EUA da sintetização de Amónia a partir de gás natural, do qual se obtém outro dos três macro-nutrientes, o Nitrogénio. Neste caso o problema é o inverso do fósforo- os preços em queda do gás natural e as importações baratas têm eliminado a margem de lucro desta indústria, a par do facto de ser a forma de poluição industrial mais multada, por contaminação de água e solos por sobre-fertilização, a principal causa das eutróficas Zonas Mortas.
17.12.10
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