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Para além do "pobrete mas alegrete"

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 Com a explosão de hortas institucionais e voluntárias e uma maior consciência relativa a alguns valores ambientais e culturais associados ao mundo rural e actividades agrícolas é tentador constatar que se reage em parte ao boom consumista dos últimos anos e ao esvaziamento de significado de uma derrapante economia de serviços. Com esta popularidade, reportagens de "interesse humano" repescam um pastor ou um "velhinho com as suas couves" e condescendentemente apontam a sua singeleza ou "poupança por causa da crise".

Um dos resultados disto é que antes de ganhar tracção ou ser capaz de se consolidar esta postura crítica face ao sistema alimentar, à organização desequilibrada de tempo e trabalho e à relação entre a paisagem e o quotidiano, torna-se alvo de uma versão dos preconceitos do novo-riquismo dos anos do boom ou é interpretada como um pacto com uma austeridade que se reveste hoje com a mesma retórica fatalista da "pobreza digna" do Estado Novo.

Há que ultrapassar preconceitos e reconhecer este activismo económico e político específico de hoje, de base rural e/ou local e centrado na qualidade de vida, com a sua própria postura crítica e interventiva.

Horticultura enquanto acto político

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@Boing Boing
A decisão do HDT de habitar de forma espartana uma cabana na floresta  durante dois anos, foi parcialmente política, com o objectivo de transformar o seu estilo de vida num acto de desobediência civil, com a fuga deliberada ao pagamento de impostos que tinham como destino um governo esclavagista, e sendo ao mesmo tempo uma espécie de experiência de redução do quotidiano às suas tarefas mais elementares.

Apesar de actualmente em muitos condados nos mesmos EUA ser ilegal recolher água da chuva; plantar uma horta; ter galinhas; viver numa mini-casa (maior do que os nossos T0) ou mesmo não ter um cartão de crédito, perdendo acesso a entrevistas de emprego ou a contratos de arrendamento, a produção dos próprios alimentos ganha cada vez mais popularidade.

Felizmente em Portugal, onde a horta e o galinheiro de quintal ainda são ubíquos, não existe uma rejeição a este nível, mas subsiste alguma miopia social em relação às hortas de subsistência e outras actividades que permitem viver com muito pouco dinheiro, sem recurso ao endividamento e com baixo consumo de recursos e tempo, muitas vezes confundidas com anacronismos de má memória ou desespero económico, quando não mesmo com vandalismo- parece que a "fuga confortável" ao consumismo através do DIY é um dos poucos actos verdadeiramente subversivos que ainda vingam.


Aproveito então para divulgar um dos tais actos de plantação subversiva, com a criação na baixa do Porto de duas hortas em dois dias (29 e 30 de Setembro), na sequência de sugestões feitas e não concretizadas num concelho onde o único programa de hortas urbanas tem mais de 1000 pessoas em lista de espera.

Album [XI]: Recessão

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Reportagem da Associated Press sobre a crise nos EUA desde 2008.

 " Kate Cramer-Herbst cleans out a vegetable box in Detroit, April 10, 2010. Detroit, which revolutionized manufacturing with its auto assembly lines, could once again be a model for the world as residents transform vacant, often-blighted land into a source of fresh food. No city seems to have as much potential for urban farming as Detroit, where land is cheap, empty lots are plentiful, and residents are desperate for jobs. (AP Photo/Carlos Osorio)"



"In this photo taken Thursday April 22, 2010, Bonnie the cow is milked by Erik Ramfjord, at the Douglas Ranch in Paicines, Calif., Ramfjord is a member of World Wide Opportunities on Organic Farms, a group with 9,000 members commonly known by a variation of their acronym, woofers. It's kind of an Outward Bound for agriculture, the new millennium version of the traveling hobo willing to work for a meal. (AP Photo/Tracie Cone)"

"Shelves are stocked at the Chittenden Emergency Food Shelf in Burlington, Vt., Wednesday, Nov. 25, 2009. Around Vermont, demand is up at food shelves as Vermonters lose jobs, try to make ends meet on unemployment and struggle with heating, food and fuel costs. Many charities say they have been able to meet the demand with donations from food drives at businesses, church groups and schools, but wonder if they'll raise enough during the upcoming holiday season. (AP Photo/Toby Talbot)"


"In this Jan. 28, 2009, file photo after an overnight snowfall, Neil Floyd starts a fire to keep warm outside his tent in the small tent city, where he lives with other homeless people in Camden, N.J. More than 37 million Americans live in poverty, and the vast majority of them are in line for extra help under the giant economic stimulus package coming out of Congress. (AP Photo/Mel Evans, file)"

via

"Nem saúde Nem sustento"

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O título é deste amigo.



Um trabalho, mesmo um que é realizado por vocação, deveria permitir uma subsistência, ou seja, ser capaz de cobrir despesas com um lar, alimentação, energia, água, roupa e meios de deslocação. Também deveria garantir, para fazer sentido, alguma poupança, para investir num projecto pessoal ou começar uma família.
Por fim, deveria oferecer autonomia e algum tempo para a viver.

Quando o trabalho não dá a autonomia nem tempo e quando não permite pôr de lado o suficiente para investir num futuro, desaparece qualquer sentido de finalidade. Quando de forma mais grave obriga a escolher entre comer ou aquecer a casa, entre pagar renda ou uma deslocação necessária e a própria subsistência é posta em causa, sente-se com grande intensidade confusão e a decepção.

Quando apesar de se ter um trabalho se deixa de ter acesso a estas coisas surgem questões em relação ao sentido sequer faz aquilo que é fundamentalmente o estilo de vida da quase globalidade da sociedade onde crescemos e aquilo para que fomos educados toda a vida. Parecem não existir alternativas realistas ao fracasso ou à sub-existência neste esquema. Se o trabalho então nem sequer existe, o sentido de futilidade e fracasso é total.

Trabalhamos durante toda a vida para comprar um futuro, qualidade de vida e subsistência, mas acabamos  muitas vezes por perde-los por vários motivos no final ou durante este percurso.
Se tivermos ao nosso alcance os meios para trabalharmos directamente para a nossa subsistência, futuro, e tempo para o viver provavelmente estamos a abdicar da poderosa promessa de liberdade das preocupações mundanas que nos é prometida com um contrato de trabalho a tempo indeterminado, um crédito à habitação, um seguro, dinheiro na conta e um plano de reforma.

Mas alguma vez a tivemos realmente ao nosso alcance?

Léxico [III] : Prosperidade sem Crescimento

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Este é o título de um livro escrito pelo economista Tim Jackson, com o clarificador sub-título de "Economia para um Planeta Finito" (crítica do Guardian aqui). A ideia de que o desenvolvimento económico é uma ferramenta que serve a qualidade de vida das sociedades humanas e não uma espécie de organismo autónomo com valor em si mesmo (vulgo "os mercados", o novo "homem do saco") seria considerada uma blasfémia, não fosse o oportuno timing de publicação após a crise de 2008, quando esta ideia de desenvolvimento começou a trair as suas bases de forma mais evidente.

Ficam evidentes  três limites para este tipo de sistema: o limite a partir do qual a sociedade tem possibilidades de trabalhar enquanto perde qualidade de vida; o limite de diminuição de salários e emprego, extinguindo-se o consumo que suporta o crescimento; e por fim os limites físicos dos recursos finitos em que se baseia a produção e consumo de bens, do crude à produção agrícola.


Como actualmente o novo mantra económico da "austeridade" domina a paisagem política, como o desemprego e redução do poder de compra são evidentes e como os bens energéticos e alimentares sobem consistentemente é oportuno pensar para além do PIB e começar a reflectir sobre os meios de assegurar a prosperidade e qualidade de vida sem recurso ao "crescimento pelo crescimento".
Este livro deixa manifesta a necessidade de rejeitar praticamente toda a política económica vigente, abrindo perspectivas para algo fundamentalmente diferente ( provisoriamente chamado "steady-state economy").
Falta saber a que sociedade corresponde esta política económica baseada na qualidade de vida e se gerações inteiras cuja valorização advém do poder de compra estarão dispostas e integrá-la com naturalidade.