Exército de um homem só

No início do século XIX em Inglaterra a nova moda do naturalismo romântico nos jardins privados atinge um novo patamar quando vários proprietários contratam eremitas para suspirarem em grutas ou abrigos nas suas propriedades em regime de permanência. Um foi despedido porque foi visto num pub ao fim de alguns dias.




O escapismo bucólico, para além da utopia comunitária assume muitas vezes a forma do herói solitário, que à mesma purificação pela imersão nesse reino subjectivo da Natureza idealizada incorpora o bónus de uma liberdade aparentemente mais fundamental - a de ninguém para chatear.
Ainda hoje a sua forma moderna, o Síndrome McCandless,  é capaz de fazer emergir fantasias de fuga ou reacções diversas a esta forma peculiar de auto-destruição (quase sempre por homens jovens, sempre criativos nesta área).

Associado temporariamente a uma actividade introspectiva, para criar ou viajar, o isolamento tem inúmeras virtudes porque suspende o quotidiano e cria um contexto interior de possibilidade ou protagonismo - viajar sozinho em parques naturais massaja o ego porque faz muitas vezes pensar que se tem o privilégio de ver o que no fundo são espectáculos privativos oferecidos pela paisagem.

O meu cepticismo face a esta forma de vida, vem da experiência em muito curto prazo do que é viver assim - pelo menos a aura de dificuldade é bastante autêntica - mas também por causa da admissão, raramente fácil, que o isolamento é uma resposta instintiva a uma incapacidade de manter ou criar relações pessoais. Abdicar destas relações é uma simplificação enganadora.

 A experiência de Walden é útil para se perceber esta projeção das ansiedades da sociedade - o seu protagonista nunca pretendeu esconder que almoçava frequentemente com a família; que visitava a biblioteca e a cidade quase todos os dias (que fica perto) e que recebia bastantes visitas. O facto de hoje ser erroneamente visto como uma experiência mística de isolamento em vez de uma forma de resistência política e crítica aos primórdios do trabalho, do consumo e da propriedade remete outra vez para os idealismos projetado nos putativos eremitas. A realidade é ás vezes uma desilusão!

Em termos práticos uma predisposição pessoal para o isolamento é totalmente incongruente com o objectivo de integrar na comunidade aquilo que pretendo fazer. Não é possível conseguir que o espaço seja entendido como partilhado sem a capacidade de socializar e envolver pessoas, quanto mais conseguir vender e valorizar o que produzo num regime de proximidade.

É um desafio muito maior do que produzir e tenho agora a noção de que é o meu maior problema.

1 comentários :: Exército de um homem só

  1. Chegar a um blog e ler num post aquilo que ando a pôr para trás do cérebro há anos. Ainda não consegui ler o post linha a linha, ando para cima e para baixo, . É porque ainda não é altura. Mas é isso, é isso.

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